Relatos de um Comissário Arcano: Chegada em Wangalyr

+Rodrigo B. Scop+

PARTE 1

 

“Vossa Arcania, o artefato já está funcionando.”

Querido diário. É dessa forma que devo iniciar, certo? Como uma criança ou um homem entediado iniciariam.

[Riso grave e contido].

Não estou de fato escrevendo, mas continua sendo um diário, imagino. Se não for para chamar assim, me avisem. Isso se vocês de fato ouvirem. Como me obrigaram a fazer tais registros, espero que ao menos tenham a dignidade de escutá-los. Especialmente você, Caranghius, cuja insistência foi grande para que a Assembleia Superior me nomeasse como comissário e me obrigasse a adotar relatos orais.

[Pigarreio].

“Vossa Arcania, não haverá edição do conteúdo.”

Pfft! E você acha que me importo, Narius? O que a Assembleia vai fazer? Dar-me outra função que não desejo? Manter-me mais alguns anos longe de Akinddur? Eles terão de ouvir tudo que tenho a dizer, da maneira que eu quiser dizer. Sei muito bem porque estou aqui, e eles também sabem.

“Peço perdão, Vossa Arcania.”

Tudo bem, esqueça. Vamos começar. O relato a seguir se refere ao dia 27 do sextante de Argaw-Unariel, ano 1452 da Era do Equilíbrio, o dia que cheguei à cidade de Gornyn, capital de Wangalyr.

Era final da manhã quando o barco aportou, e o calor estava digno de Mavin-Gor. Não havia uma única nuvem no céu. Enquanto a embarcação flutuava no meio do rio Agrittal, ainda havia um vento ameno. No entanto, quando desci pela rampa e coloquei os pés nos trapiches do porto, senti pena dos doze soldados que, divididos em duas linhas, formavam um corredor para me receber. Era possível sentir os raios solares aquecerem a pele, e eles vestiam cota de malha, elmo e tabardo azul e cinza. Estavam empertigados e inertes ao menos desde que distingui ao longe em qual doca aportaríamos. Cada um deles segurava um longo estandarte com a mão direita e repousava a mão esquerda no pomo da espada à cintura. O símbolo ostentado era o gavião cinzento em céu límpido da casa real Landdarion. Depois da guarda, me esperavam dois homens em túnicas coloridas.

– Bem-vindo à capital, comissário Naegthar. Meu nome é Bernast Fadillien. – Um homem baixo e gordo, cujos cabelos negros estavam lambidos para trás, fez uma rápida mesura. Gotas de suor escorriam por seu rosto. – Sou ministro da justiça do rei Gaffenir. Esse é Itallon Carppan, comandante do exército real. Nossas ordens são de auxiliá-lo na instalação e manutenção da força da Mão Arcana no reino.

O militar, que me cumprimentou com um movimento rígido de cabeça, é alto e magro e se destaca pelos ombros largos e pela postura elegante. É calvo e cultiva um cavanhaque grisalho. Ele não carregava arma alguma. Que tipo de comandante de exército anda pela cidade sem uma arma e uma armadura? De imediato julguei-o como um aristocrata nomeado ao cargo pelo nome e poder político da família, não por seus méritos e comprometimento com a função. Não estava errado, tampouco estava certo. Na verdade, ainda não tenho uma conclusão sobre Itallon. A habilidade de combate dele já se mostrou útil, mas isso é assunto para outro registro.

Retornando à nossa chegada, gostaria de salientar que não há razões para reclamar da recepção e da atenção dos wangalyeses com nossa comitiva. Todos foram alimentados e levados para conhecer os principais pontos da cidade. O rei Gaffenir ordenou a desocupação de uma construção de pedra na Praça da Justiça, ao lado do Tribunal Real, e nossos pertences foram transportados de imediato para a sede. O local é amplo o suficiente para abrigar todos que vieram comigo, de assistentes a arcanos. Quanto às forças que chegarão depois, fui informado de que mais dependências serão disponibilizadas em construções próximas, quando forem necessárias.

Enquanto o restante da comitiva era apresentado às ruas e serviços de Gornyn, o ministro da justiça e o comandante do exército me acompanharam até o castelo real, localizado em uma alta e larga colina. Ele desponta acima do resto da cidade, que se estende por montes menores. Um cavalo castanho me foi cedido, e fui guiado apenas por vias pavimentadas pelo sobe e desce das elevações de Gornyn.

Penso que eles contavam com o fato de eu não possuir destreza ou sequer costume com montarias. Cavalgando junto à Bernast e Itallon, senti-me um idiota, um inferior. A população da cidade me assistiu passar recurvado e desajeitado ao lado dos dois homens montados de costas eretas e porte elegante. Nos olhos dos populares enxerguei a admiração e a curiosidade tão comum às nossas habilidades darem lugar a deboches e ironias. A cada risinho, desejei desmontar e arrancar-lhes os dentes. Por sorte soldados a pé os mantinham a certa distância, escoltando nossa passagem, exigindo o desvio de carroças e dispersando grupos de populares.

Havia anos que não cavalgava, e o subir e descer do relevo exauriu minhas coxas. Sem falar dos glúteos. Aliás, Narius, arranje uma compressa morna para minhas pernas, por favor. Já que preciso fazer esse relato, melhor aproveitar o tempo sentado e relaxar os músculos duros e pesados como pedras.

[Trinco girando e porta batendo].

Acima do portão do castelo, que já se encontrava aberto, pendia uma enorme bandeira com o gavião cinzento da casa Landdarion. No pátio, alguns soldados e serviçais se aproximaram quando paramos próximos da entrada principal. Até aqueles mais distantes lançaram olhares curiosos. Esforcei-me ao máximo para manter a postura correta e vistosa. Assim que desmontamos, cavalariços tomaram os animais e os encaminharam para o estábulo real.

O castelo em pedra cinzenta é grande e alto, com quatro amplas torres nos cantos e uma muralha de cerca de trinta metros, mesma altura da que circunda a cidade. Não chega aos pés da beleza dos palácios que possuímos em Akinddur, mas é um castelo imponente para um reino humano comum.

Bernast e Itallon me conduziram pelo hall de entrada, por um longo corredor à direita, por um amplo salão vazio e por dois lances de escada em uma das torres. Quatro soldados montavam guarda à frente de um aposento. Ao sinal do comandante do exército, um deles bateu na porta. Um jovem de cabelo castanho curto e de túnica azul com ricos detalhes cinzentos a abriu. Ele me analisou da cabeça aos pés com seus olhos castanhos e gesticulou para entrarmos. Após fechar a porta atrás de nós, pegou uma espada embainhada encostada na parede e a estendeu para Itallon Carppan.

Enquanto o comandante a atava em seu cinto, não pude deixar de notar que a espada era digna de seu posto. O couro da bainha possuía detalhados relevos que davam forma a um dragão. O aço da guarda era trabalhado de maneira a parecerem duas cabeças draconianas, e o pomo era ornado com um cristal simples, mas envolto em metal no formato de um pequeno dragão.

– Comissário Naegthar, esse é Moffern Landdarion, príncipe herdeiro de Wangalyr – apresentou Bernast. – Ele auxilia o rei em variados assuntos, de modo que você o encontrará com frequência.

Realizei uma reverência curta, e Moffern apenas assentiu de maneira seca. As expressões do rosto eram nítidas e antipáticas. A mão esquerda balançava próxima da espada à cintura. Encarei-o fundo nos olhos, tentando avaliar se desejava me atacar ou se apenas estava com medo. Entretanto, o ministro da justiça me interrompeu.

– Por aqui, comissário. O rei o espera.

Estávamos em uma antessala dotada apenas de uma mesa cheia de papéis e pergaminhos. No canto, um tinteiro e duas penas. As paredes são ornadas com pinturas de batalhas. Pela janela entrava o calor e a claridade da rua, e Bernast gesticulava junto a uma porta lateral. Ao me aproximar, o ministro bateu na porta e colocou a cabeça para dentro.

– Vossa Majestade, o comissário arcano está aqui.

Não consegui ouvir qualquer resposta, mas Bernast escancarou a porta e liderou o caminho pelo gabinete real. Itallon e Moffern nos seguiram.

O ambiente é grande, mas confortável. No lado oposto às duas janelas, uma lareira cercada por poltronas. No fundo, uma ampla escrivaninha com uma rebuscada cadeira de encosto alto, na qual se sentava o rei. A sua frente, quatro cadeiras comuns. Atrás do soberano, uma tapeçaria com o gavião cinzento da casa Landdarion. Nas demais paredes, prateleiras cheias de tubos de pergaminhos e livros.

O rei Gaffenir se levantou para nos receber. Alguns de vocês já o conhecem, mas ele é alto e magro, possui peito largo, nariz torto e cabelos castanhos ondulados até os ombros. Usa uma barba vasta, e os olhos são castanhos e difíceis de interpretar. Aparenta seus trinta e dois anos de idade. Ao me aproximar, prestei uma reverência, cuidando para não fazer um movimento muito curto, nem um profundo a ponto do joelho se aproximar do chão, exatamente como a Assembleia me ordenou.

– Vossa Majestade, em nome da Mão Arcana, consoante tratado assinado em Akinddur, coloco o meu serviço e o de todos sob meu comando à sua disposição. Alguns arcanos ainda estão por chegar à Gornyn, mas poderemos iniciar operações assim que nos instalarmos.

– Agradeço, comissário, e cumprirei minha parte no acordado, mas não são necessárias formalidades entre nós. – Sua voz saiu grave e cadenciada. – Falemos como dois homens com objetivos comuns. Sente-se.

Ocupei uma das cadeiras simples diante do rei. O ministro da justiça, o comandante militar e o príncipe permaneceram de pé.

– Fiquei muito satisfeito ao saber que você seria o comissário arcano em Wangalyr. – Gaffenir voltou a se sentar. – Confesso que estava ansioso para conhecer o famoso Naegthar de Deffand. Acabei nem lhe dando oportunidade de se lavar.

[Trinco girando. Porta batendo].

Você demorou, Narius.

“Sinto muito, Vossa Arcania. Aqui está.”

[Água se movendo em recipiente mole].

[Suspiro].

Isso é agradável. Mais tarde você precisará providenciar outra dessas bolsas de água para mim.

“Às suas ordens.”

Onde eu estava? Ah, sim. Sem pressa, esbocei um sorriso e fiz uma mesura com a cabeça para o rei, aproveitando para espiar a condição de meus trajes. A túnica azulada estava com marcas de suor nas axilas e no pescoço. Teria preferido me lavar, mas não se pode recusar um encontro com o rei.

– Espero que não tenha se importado com a recepção simples no porto – continuou Gaffenir, esboçando um sorriso. – Penso que há maneiras melhores de se gastar o ouro real, especialmente na atual situação de Wangalyr. E agora ainda precisaremos pagar à Mão Arcana.

Algo em sua maneira me alertou para simpatia exagerada. Pareceu um homem que gosta de falsas ações e pretensões escusas. Não sou um homem político como a maioria na Assembleia, mas consegui identificar esses traços já em nossa primeira conversa. Ele é um rei com o qual devemos tomar cuidado.

– Vossa Majestade, não estou aqui para ser tratado de maneira pomposa, mas para auxiliar Wangalyr e cumprir o acordado. Pouco me importa se a recepção foi simples ou exagerada. Aliás, por onde devo começar? O que Vossa Majestade tem em mente para a utilização de nossos arcanos?

– Falaremos disso hoje à noite, no jantar. Aproveitarei o momento para apresentá-lo a algumas outras pessoas que você deve conhecer. Gostaria também que me falasse detalhes de como funcionam os auxílios da Mão Arcana a outros reinos. – Ele olhou e apontou para os homens de pé. – Seria bom se Bernast e Itallon também estivessem junto.

– Como desejar, Vossa Majestade – dissemos os três em uníssono.

A porta do escritório abriu de repente. Um soldado cruzou o aposento, se inclinou ao lado do rei e cochichou em seu ouvido. As expressões de Gaffenir Landdarion endureceram. O maxilar saltou na lateral do rosto. Ele se levantou, e eu o imitei.

– Comissário Naegthar, talvez você possa começar agora. Uma ajuda arcana será necessária. – Assenti com o queixo. – Siga-me.

Quando o soberano se aproximou da porta que ligava a antessala do gabinete ao corredor do castelo, percebeu que Moffern também nos acompanhava. Ele se virou para o filho, sacudiu o dedo em negativa e apontou para a mesa cheia de papéis. O jovem não escondeu a decepção ao caminhar na direção indicada. O rei Gaffenir deu-se por satisfeito com um movimento de cabeça convicto e retomou sua marcha a passos largos.

Enquanto virávamos pelos corredores do castelo, o rei emitiu ordens comuns para serviçais e subordinados com os quais cruzava. Ainda não sabia o que estava acontecendo, mas o ministro da justiça e o comandante militar pareciam inteirados da questão. Seus semblantes eram sérios, mas não confusos. Quando alcançamos um pátio lateral, alinhei com o rei de Wangalyr e indaguei com voz firme:

– O que está acontecendo, Vossa Majestade? – Gaffenir me mirou pensativo. – Preciso saber para estar preparado. Talvez tenha que chamar mais arcanos para lidar com a situação.

– É trabalho para um homem só – garantiu o soberano, com um meio sorriso pretensioso. – Você capturará um antigo sacerdote da Tríade que vem causando problemas na cidade, em especial após o acordo com a Mão Arcana. Meu serviço secreto acabou de confirmar o local em que ele discursará ainda hoje.

Encarei o rei por alguns instantes. Então concluí:

– A reunião foi um pretexto para me trazer assim que aportei. Vossa Majestade apenas deseja me incumbir de uma missão.

O rei de Wangalyr deu de ombros.

– Não pagaria pela paz arcana se não tivesse pressa em resolver os problemas do reino. Além disso, quero saber se fará jus a sua fama.

Sorri diante do desafio. Imaginei como vocês da Assembleia reprovariam minha participação na execução de missões. Fico feliz em dizer que não me importei. Foi uma requisição real, vocês compreendem.

[Risadas contidas].

Encarando com olhos faiscantes o rosto de Gaffenir, respondi com entusiasmo ácido:

– Qual o plano de Vossa Majestade?

 

PARTE 2

 

O rei Gaffenir me explicou o plano, mas não o direi de antemão para manter algum mistério. Não desejo que vocês da Assembleia fiquem entediados com meus relatos. Em especial quem gosta de tramas e intrigas.

Deixei o castelo sozinho com uma capa marrom sobre a túnica azul. Sequer precisei trocá-la para a missão. As manchas de suor e a sujeira colaborariam para que passasse despercebido entre os populares de Gornyn. Após caminhar duas quadras sob o sol forte, a capa também umedeceu com a transpiração.

Dobrei à direita na esquina em que figurava uma oficina de ferreiro com ampla fachada. Ao lado havia uma estreita alfaiataria identificada pela pintura de uma túnica e de uma calça na placa ao lado da soleira. A porta estava fechada e, como orientado, bati cinco vezes. Um velho encarquilhado a abriu e me observou por completo. Fiquei surpreso que alguém naquelas condições ainda estivesse vivo. Você está exalando juventude se comparado a ele, Caranghius.

[Risos com a garganta].

Ao gesticular com o braço flácido para que entrasse, o idoso apontou para a porta e percorreu um corredor vazio. Fechei a entrada da alfaiataria e o segui até um aposento apertado e entulhado com sobras de tecido e roupas em produção. Sentada em uma bancada com ferramentas, uma mulher de cerca de trinta anos me aguardava de braços cruzados. Ela franziu o cenho do rosto estreito e comprido. A pele era cor de caramelo, e os cabelos, castanhos e crespos. Os olhos pretos me analisaram com agilidade. Ela era jovem e usava um vestido esverdeado sob uma capa negra.

– Você é ele? – A voz era seca e belicosa.

– Sou.

– Prove.

– As águas do Agrittal dividem espíritos e corpos. Os do norte, covardes e moles, os do sul, corajosos e duros.

Imagino que estejam rindo agora. Sim, senti-me um tolo recitando um ditado desses, mas foi a senha que o comandante Itallon Carppan me passou. Ele também se divertiu ao insistir que era a única utilizável. Ao que parece a rivalidade entre os reinos de Wangalyr e Alyzair continua tão acirrada quanto sempre soubemos.

De qualquer forma, por mais que seja engraçado, pelo menos recebi em retorno um sorriso da agente do rei.

– Imaginei-o diferente, comissário. Sou Erinn.

Arregalei os olhos e mirei o idoso, que retomava seu lugar junto ao balcão com as roupas. Erinn deu de ombros.

– Ele é surdo, não se preocupe.

O velho percebeu que o encarávamos e fez um gesto claro para que fossemos embora. Segui Erinn por uma porta nos fundos e me vi em um aposento estreito e sem janelas. Havia apenas uma cama, uma mesa de cabeceira com uma lamparina e um armário. A agente se inclinou e moveu a mesa para o lado, revelando um alçapão. Enquanto Erinn destrancava um largo cadeado com um molho de chaves retirado do decote, perguntei:

– Como você me imaginou?

– Mais velho.

– Se importa em elaborar?

Ela puxou a alça de ferro e iluminou a abertura com a lamparina, sinalizando para que entrasse primeiro. Uma escada vertical apareceu, e comecei a descer. Como não era comprida, logo toquei o chão.

– Você estava cotado para compor a Assembleia da Mão Arcana. – Erinn soltou a lamparina pelo alçapão antes de tomar a escada. Peguei-a e iluminei o estreito túnel adiante. – E também é um arcano de renome. Esperava ver algumas rugas em seu rosto.

– Comecei cedo. – Dei de ombros. O alçapão rangeu ao ser fechado. – Então vocês me investigaram. Descobriram algo interessante?

Erinn estreitou os olhos e tomou a lamparina de minhas mãos, adiantando-se e guiando o caminho pelo túnel. O teto era baixo, e o chão, de terra.

– O suficiente para supor que você conseguiria encontrar Sardonn.

– Vocês já o localizaram sem minha ajuda.

– Assim como outras três ou quatro vezes. Ele sempre consegue escapar. Nunca conseguimos nos aproximar dele com homens suficientes para prendê-lo. Ele se esconde entre o povo com seus companheiros e some nos túneis sob a cidade.

Alcançamos uma porta de madeira, que Erinn destrancou. Atrás, uma pequena câmara e um novo alçapão com cadeado. Dessa vez a escada possuía degraus de pedra e levava a um túnel mais largo e pavimentado.

– Nem arcanos conseguiram se aproximar?

– O rei contratou alguns. Dois deles falharam em capturá-lo nas ruas, outros não conseguiram encontrá-lo.

Alcançamos uma câmara com três outras opções de caminho. Erinn escolheu o esquerdo, e me deparei com um leve aclive. Outra vez o chão era de terra, e os passos silenciaram.

– Qual a história de Sardonn? O comandante Itallon o descreveu fisicamente, mas não disse a razão de estar sendo caçado.

– É um fanático. Antes de se estabelecer em Gornyn, era um sacerdote andarilho que pregava o ódio aos arcanos e às raças não humanas em pequenos vilarejos. Ele inflama o povo e sabota negócios e caravanas, em especial se envolvidos com a Mão Arcana. Tudo piorou após o acordo para a paz arcana.

– Difícil de acreditar que não conseguem localizá-lo. É de um antigo sacerdote da Tríade que estamos falando.

Erinn parou diante de uma grade de hastes grossas e me encarou com seriedade. Os olhos faiscavam à luz da lamparina. A voz saiu crítica.

– Parte da população o protege, e o rei insiste em não fazermos das pessoas o inimigo. Então não podemos torturar todos os suspeitos por informação, nem atacar um lugar público arriscando a vida do povo.

– Ele não quer ser odiado.

– Quer ser aclamado como o rei que salvou Wangalyr dos fora-da-lei, contrabandistas e mercenários. Quer ser um herói.

– E você desaprova.

– Não é minha função aprovar ou desaprovar, mas o reino não precisa de heróis, precisa de pessoas dispostas a fazer o que é necessário. E nosso rei sabe disso.

A agente real destrancou a grade e me guiou por um túnel amplo e curvo repleto de interseções com passagens estreitas.

– É essa a verdadeira intenção do rei Gaffenir com a Mão Arcana? Culpar-nos por atos vis e excessivos que ele considerar necessários? O povo sabe que foi ele quem nos propôs um acordo e nos contratou. Nossas ações virão de ordens dele.

Em frente a uma porta de ferro, Erinn remexeu o molho de chaves na mão e voltou a me encarar.

– Não sei. No entanto, você tem sua ordem. Ela pode ser um indicador. – Suspirei e movi o queixo em compreensão. – Agora chega de conversa. A partir desse ponto, erga o capuz e se comporte como um popular corajoso o suficiente para manifestar apoio à Sardonn em público. Não olhe para os lados. Se precisar, olhe para mim, estaremos de mãos dadas. Os soldados com quem cruzaremos não sabem quem você é. Não nos faça ser interrogados.

– Não sou um iniciante. – Esbocei um sorriso cínico e estendi a mão direita.

– Espero que seja a verdade. Passamos semanas sem informações sobre Sardonn. Podemos não ter outra oportunidade.

Erinn destrancou a porta de ferro e me puxou. Assim que nos vimos em uma câmara de teto baixo com dois caminhos possíveis, a agente fechou a passagem e observou os arredores. Ao longe, ouvi o som de passos e murmúrios. À medida que Erinn me conduziu por diferentes curvas e esquinas, os barulhos aumentaram, e passei a enxergar vultos iluminados por tochas ou lamparinas que se deslocavam na mesma direção que nós.

[Água se movendo em recipiente mole].

Narius, a bolsa já esfriou. Pode levar.

“Sim, Vossa Arcania. Deseja outra?”

Não, deixarei para mais tarde. No entanto, gostaria de vinho.

[Trinco abrindo e porta batendo].

[Pigarreio].

Após algum tempo, alcançamos uma câmara na qual desembocavam sete túneis. Três escadas móveis subiam até uma larga abertura pela qual irradiava luz solar. Havia uma pequena fila para cada uma. Erinn escolheu a da direita e subiu primeiro. Saímos em um beco que levava até uma ampla praça cercada por construções de madeira com dois andares. No centro, um palanque ainda vazio. Pessoas chegavam por vielas de todos os lados, algumas observavam das janelas ao redor. Sussurros enchiam o ar. Erinn me puxou para uma parede, ficando de costas para o movimento, juntando nossos corpos. Coloquei as mãos em sua cintura.

– Conversaremos aqui até ele chegar e trocaremos de posição às vezes – sussurrou ao pé do ouvido. – Cumpra o papel, mas se tentar me beijar, o rei precisará de um novo comissário.

Forcei um sorriso e assenti, aproximando os lábios de seu pescoço. Ela cheirava à fornalha.

– Onde nós estamos?

– Em uma praça de mercado. Hoje não há comércio algum em razão do pronunciamento do rei sobre o início da colaboração com a Mão Arcana. Por isso Sardonn escolheu esse local.

– Não me parece que seria difícil cercar a praça e capturá-lo, caso houvesse soldados suficientes envolvidos.

– Não o subestime, mesmo com suas habilidades arcanas. – O tom de Erinn foi cortante. – E ele divulga o local para a população ao alvorecer. Dificulta qualquer planejamento.

Erinn e eu conversamos por algum tempo sobre a situação de Gornyn, aguardando pela aparição de Sardonn. Ela reclamou daquilo que a Assembleia já conhece. Grupos de fora-da-lei que aterrorizam estradas e pequenos vilarejos, contrabandistas que afetam os cofres reais, ladrões que deixam a cidade insegura à noite, baixa taxa de adesão ao exército, condes e barões que demonstram maior interesse em adquirir fortuna e poder político do que em fazer seus domínios prosperarem. No entanto, enquanto ela falava, tive a impressão de que a situação é ainda pior do que sabemos. O tempo nos mostrará se a Assembleia deveria ter juntado informações melhores antes de negociar o preço da paz arcana com o rei Gaffenir.

Quando a praça estava cheia, um homem usando capuz preto e máscara vermelha subiu no palanque. Ainda que estivesse encarando a multidão, não soube de onde ele havia saído. O público ovacionou a aparição, e Erinn se voltou para o centro do local, encostando ao meu lado na parede.

– Ele sempre usa máscara?

– Poucas vezes. Não sabemos qual o critério para ele usar ou não.

– Então pode nem ser ele.

– Logo descobriremos.

Expirei com força, franzindo o cenho, e Erinn ergueu os cantos dos lábios.

Então o homem mascarado no centro do palanque falou. A agente real me fitou com olhos sérios e assentiu. A voz era retumbante, enrouquecida e inflamada.

– Cidadãos de Gornyn. Verdadeiros cidadãos de Gornyn, não aqueles que desejam ver nosso amado reino de Wangalyr entregue às garras da Mão Arcana. Cumprimento-os com sincero reconhecimento pela coragem e dignidade que demonstram ao estarem aqui hoje. Bem-vindos. – O público aplaudiu e assoviou. Erinn se juntou ao coro, e logo a imitei. Sardonn ergueu a mão e todos silenciaram. – Apesar de nossos esforços, do brado cansado e do suor sofrido de todos que desejam o bem de Wangalyr, o rei Gaffenir se ajoelhou perante a Mão Arcana. Nesse exato momento, na Praça da Justiça, nosso governante demonstra nada além de fraqueza ao comemorar o início do que eles chamam de paz arcana. – Alguns na plateia vaiaram o rei, e Sardonn aguardou que a manifestação cessasse para retomar o discurso incandescente. – Enquanto Gaffenir Landdarion clama estar fortalecendo o reino, ele o está colocando à mercê da Mão Arcana. Vejam como essa maldita ordem controla o reino de Alyzair. Nós não somos fracos como eles, precisamos manter nossa autonomia. – Gritos de apoio reverberaram pela multidão. – A paz arcana não passa de um nome bonito para o controle que Wangalyr sofrerá de uma ordem repleta de arcanos corruptos. E o rei ainda pagará a eles por isso. Em pouco tempo precisaremos subornar arcanos para tudo que desejarmos fazer e implorar para que não nos matem. É assim que vocês desejam viver? – O público rugiu, e troquei olhares preocupados com Erinn. – É claro que não. Vocês querem viver em um reino livre, em uma Wangalyr cujo rei se importe de verdade com o povo. E por isso nós precisamos mostrar a ele o que desejamos.

[Trinco girando e porta abrindo].

“Vossa Arcania, aqui está.”

[Líquido sendo servido].

Ótimo. Ao menos o vinho aqui é decente, apesar de todos preferirem hidromel. Narius, você deixou a porta aberta.

“Desculpe-me, Vossa Arcania.”

[Porta batendo].

Continuando. Enquanto as pessoas na praça apoiavam o discurso com aplausos e brados, me aproximei do palanque, passando entre os populares, erguendo o braço em apoio, gritando o nome de Sardonn, mantendo a cabeça baixa. Erinn não me seguiu. A próxima parte da missão era minha. A agente real avisaria soldados que se escondiam na vizinhança. Parei a passos do palco de madeira. Dois brutamontes guardavam Sardonn naquele lado, enquanto seis ao todo o vigiavam com porretes pendurados à cintura. A dupla me encarou com firmeza, mas desviou os olhares assim que me juntei ao coro do público. O antigo sacerdote da Tríade retomou a palavra:

– Se vocês desejam o bem de Wangalyr, se querem a libertação dos exploradores arcanos, aguardem por ordens nos próximos dias. Lembrem-se do que prega o Livro de Hannor: “os humanos foram criados para dominar o mundo, para guiá-lo ao equilíbrio, para livrá-lo da fúria cega dos artranni e dos caprichos assassinos dos irdranni, para tornar a criação dos Primevos um lugar de paz.” E como afirma o livro de Shakka: “Não haverá paz para os humanos sem que se pegue em espadas para lutar pelo desejo dos Primevos, pelo equilíbrio de que viemos e ao qual somos destinados.” – O público balançou a cabeça em concordância solene. – Os arcanos apenas trazem o mal, o desequilíbrio. Seus poderes derivam dos irdrans. Eles não deveriam nos governar, nós que deveríamos governá-los.

A praça retomou a manifestação de apoio à Sardonn, que ergueu as mãos e aguardou as pessoas silenciarem.

– Soldados! – gritou um homem encapuzado no telhado de uma das construções ao redor.

Os seis brutamontes se aproximaram de Sardonn, que se abaixou e saltou do palanque. A multidão começou a gritar, empurrando e puxando uns aos outros, correndo rumo às vielas, becos e acessos aos túneis subterrâneos de Gornyn. Avancei para perto do antigo sacerdote e fingi estar apavorado, arregalando os olhos e movendo a cabeça de um lado a outro. Os homens de porrete afastavam os populares e abriam caminho para o mascarado correr até um beco estreito. Nenhum deles percebeu que os seguia de perto em meio aos gritos e empurrões.

Ao alcançarmos o beco, nos deparamos com um grupo de pessoas afoitas em descer por um alçapão. Elas cercavam a passagem, enquanto dois por vez alcançavam os túneis sob a capital de Wangalyr.

– Saiam da frente – gritou um dos brutamontes, e um espaço se abriu para Sardonn passar com seus guardas.

Ao me aproximar do grupo do antigo sacerdote para passar em seguida, três homens de capuz me encararam com ímpeto furioso. Antes que eles tentassem me deter, me concentrei e movi a mão, interferindo em suas mentes, fazendo com que me enxergassem como um sétimo brutamontes. Eles balançaram a cabeça para os lados, confusos, e não me abordaram.

Assim que desci os degraus de pedra até um túnel mergulhado na penumbra, segui Sardonn por uma passagem lateral. Diversos populares transitavam às pressas pelo subterrâneo. O grupo do antigo sacerdote dobrou à esquerda e à direita por diferentes túneis e passagens. Segui-os de perto. Então, em uma pequena câmara, quando não havia ninguém ao redor, três dos brutamontes pararam e ergueram os porretes, enquanto os outros continuavam a se mover.

– Ninguém toma o mesmo caminho de Sardonn – grunhiu um dos brutamontes, movendo a arma em ameaça. – Volte agora.

Sequer cheguei a parar. Passei a mão em arco no ar e mergulhei o trio em um delírio agradável e excitante com garotas nuas e barris de cerveja. Os maxilares trincados e os olhos agressivos foram substituídos por lábios salivantes e músculos relaxados. Os porretes rolaram no chão de pedra com um barulho seco. Juntei uma das armas, enquanto Sardonn me fitava por trás da máscara e sinalizava para os três guardas restantes me enfrentarem.

Outra vez não precisei parar. Todos possuíam mentes fracas, e as ilusões não exigiram grande esforço. Coloquei o trio no mesmo delírio com cerveja e mulheres. Eles também relaxaram e adquiriram expressões de desejo bobo, deixando-me sozinho com Sardonn.

O antigo sacerdote correu e entrou em um largo túnel com chão de terra. Segui seus passos, mas ele era mais rápido. Então conjurei uma esfera de luz azul a sua frente, e Sardonn parou assustado. Imagino que tenha julgado se tratar de um ataque. Se ele soubesse sobre minhas poucas capacidades arcanas além das ilusões, talvez tivesse escapado.

[Riso contido].

Alcancei-o em alguns passos e lhe acertei com o porrete, abrindo o crânio entre a têmpora e a nuca com um estalo seco. O capuz escorregou e a máscara saltou. Ele tentou permanecer de pé ao se apoiar na parede, mas não conseguiu se sustentar e caiu sentado no chão. Sob a luz azulada da esfera, encarei os olhos castanhos vacilantes e observei o queixo proeminente e o nariz bulboso. Não era ele. Não era Sardonn. A descrição não batia. Era o homem errado, e o rei Gaffenir está furioso, questionando a utilidade dos arcanos em Wangalyr enquanto faço esse relato.

[Risadas expiradas].

Estou brincando, era Sardonn. Devo lembrar a Assembleia de que, mesmo quando a habilidade arcana não é suficiente, a sorte sempre está ao meu lado? Vocês sabem disso. Bom, retomando. Poderia ter levado o antigo sacerdote até o rei com uma ilusão que me permitisse guiá-lo, mas as ordens foram explícitas. Então brandi o porrete outras três vezes contra a cabeça de Sardonn, evitando acertar o rosto. Quando terminei, os olhos estavam fechados, e a parte de trás do crânio não passava de uma massa de miolos e cabelos.

Olhei os arredores. O túnel estava vazio e silencioso. Da base das costas, retirei duas adagas curvas escondidas sob a capa escura. Cravei ambas na garganta de Sardonn, uma junto da outra, e tentei afastá-las para decepar a cabeça. Não funcionou, mas senti o sangue quente encharcar minhas mãos. Deixei uma das lâminas no pescoço, segurei o queixo com a mão esquerda e passei a cortar a cabeça fora. Não imaginava que fosse demorado e exigisse esforço. Por sorte havia submetido os brutamontes a delírios longos, ou eles teriam me encontrado.

Retirei a capa preta de Sardonn e enrolei-a na cabeça decepada. Guardei as adagas e, satisfeito pelo dever cumprido, vaguei pelos caminhos subterrâneos até encontrar um acesso à superfície. Após subir por largos degraus, cruzei uma passagem em arco e me deparei com uma praça tranquila, na qual crianças brincavam. Elas ficaram receosas ao me enxergarem, mas apontaram a direção do castelo real.

[Batidas na porta. Trinco girando].

“Vossa Arcania, o ministro da justiça está aqui para a reunião.”

Já? Ele está adiantado. Narius o buscará quando eu estiver pronto para recebê-lo. Obrigado, Faggya.

“Às suas ordens, comissário.”

[Porta batendo].

Membros da Assembleia Arcana, gostaria de contar-lhes sobre a trilha de sangue que deixei nas ruas no trajeto até o castelo real e sobre como fui recebido pelo rei, mas precisarei encurtar o relato. Basta saberem que o rei Gaffenir ficou muito satisfeito com o sucesso da missão e com o fim de um notório criminoso.

Aliás, falando outra vez no rei, precisamos nos atentar às ações e comandos dele. Ainda que a Mão Arcana esteja sendo paga, não podemos nos colocar em certas posições. Nisso eu ajudaria muito mais se estivesse sentado na Assembleia em vez de ocupando esse maldito cargo. Bom, ao menos tenho tido alguma ação.

No próximo relato desejo contar-lhes sobre os acontecimentos do jantar daquele mesmo dia. Agora preciso atender o ministro Bernast Fadillien para tratar sobre o planejamento das patrulhas arcanas por Gornyn. Espero que tudo esteja bem em Akinddur.

Narius, como encerro o registro?

“Basta tocar o artefato e ordenar com a mente, Vossa Arcania.”

Certo, certo. Obrigado.

FIM

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