A Guia Através dos Tempos de Angústia

+Rodrigo B. Scop+

 

Tudo começou quando um sorriso tímido adormeceu a vida ao redor e fez surgir olhos ternos e meigos que me envolveram como uma bruma aconchegante. Refletidos neles, enxerguei a oportunidade do prazer. Chance nascida do desejo, da busca por satisfação momentânea, da emoção ainda latente perante os créditos finais que passavam na televisão. A música final do filme silenciava diante da atração da criação. O teto do quarto era alvo de um olhar cego, cujo brilho sonhador se originava na imagem borrada de um rosto em fundo negro.

Minha respiração cessou e um calafrio tomou meu corpo quando as maçãs do rosto obscuro se deslocaram, revelando pequenas covas, iniciando um fluxo de emoções na forma de um ser magnífico. Apesar de decididas as expressões dos olhos, a cor ainda estava indefinida. Era fator imprescindível para o modo como a inacabada mulher refletiria memórias e profundos desejos. Em meio ao fundo escuro, que parecia se mover a cada opção de matiz testada, imaginei as implicações de cada cor nos cantos mais obscuros dos meus pensamentos. Olhos negros me atraíram por sua força, constância e mistério, mas não pareceram condizentes com o sorriso tímido imaginado.

Pensei, então, em olhos castanhos, os quais me passaram a impressão de segurança e conforto, mas ainda sem me causarem o impacto necessário. Tentei olhos acinzentados, mas estes pareceram falsos para a personalidade, assim como os vermelhos, que remeteram à violência e terror.

Por fim, cedi ao azul. Ainda que remetesse a um passado em parte desgostoso, o olhar me capturava. Era um azul claro – não brilhante ou imponente, mas envolvente e chamativo; um azul que me fazia mergulhar em sua personalidade e derreter perante tamanha perfeição.

A cor dos cabelos foi a escolha mais rápida e mais correta, ainda que não a mais fácil. Não vi outra maneira desta nova mulher chamar e prender tanto a atenção senão com compridos e lisos cabelos negros. A pele clara e macia, adornada com sardas distribuídas com perfeição pelo nariz e abaixo dos olhos, forneceu o toque final ao rosto da inacabada mulher. Ao pensar em aproximar os lábios de seu pescoço, vejo-a reagir com um sorriso tímido e uma encolhida de ombros. Além do encantamento, desfrutei um aroma leve e doce com um toque de canela.

A televisão mudou para propagandas barulhentas, despertando-me do transe. Sustentando um sorriso bobo e satisfeito, desviei o olhar do teto. Sentei-me na cama, agarrei o controle remoto e pressionei o botão mute. Esfreguei as mãos no rosto e olhei ao redor, percebendo a realidade sem graça. Temi que a recente criação caísse no esquecimento, fundindo-se com outras que viriam a preencher meu mais profundo imaginário. Assim, com o rosto risonho e o leve aroma de canela inebriando a mente, sentei à escrivaninha. Precisava finalizar seus contornos para então passar à personalidade. Dando pouca importância ao corpo, imaginei-a esbelta e delicada, sem maiores detalhes. Não era isso que buscava ao criá-la, mas sim a capacidade de me encantar.

Anotei as características físicas em uma folha e deitei na cama, observando a lua. Tentava solidificar maneiras de agir para aquela nova mulher. Em instantes precisei admitir que não desenvolvia uma simples personagem, mas aquela que poderia me completar em uma fria madrugada. Meus olhos percorreram todo o quarto e repousaram em um retrato na ponta da escrivaninha. Inúmeras lembranças melancólicas me assaltaram, e mergulhei no passado. Após longo tempo retornei à nova criação, torcendo para que me fizesse sentir melhor.

Para a definição da personalidade, bastou uma análise sincera do que eu gostaria em uma companheira naquele momento. Carinho, perspicácia e independência. Ela não se eximiria de responsabilidades, saberia ser séria, respeitaria a todos e, acima de tudo, manteria um ótimo humor sob qualquer situação: simplesmente apaixonante.

Antes mesmo de ambientar a personagem em algum universo, já a amava. Um alguém que preenchia os vazios existentes na alma a partir da imaginação. Sem dúvida, ela deveria ser imortalizada, inesquecível em palavras. Eram inúmeras as histórias a serem contadas, reescritas, inventadas. Todas verdadeiras e emocionantes em pensamentos. Das infinitas maneiras de encontrá-la ou observá-la, escolhi aquela que mais me apetecia na madrugada silenciosa. Algo simples e querido. Voltei à escrivaninha, empunhei um lápis e pressionei-o contra a folha, buscando as primeiras palavras inspiradas pela nova musa, ainda que não nomeada.

 

Estava quieto em uma grande mesa, ouvindo os diversos amigos conversarem com os copos nunca vazios. O som agradável de um saxofone completava o ambiente. Observei uma amiga e seu namorado, juntos, em carinhos sinceros. Quando os dois se separaram após um longo beijo, surgiu no espaço entre eles o sorriso mais encantador que já vira, como o sol esperançoso na fresta de um quarto sombrio. Um sorriso acompanhado de pequenas e fofas covas. Era um riso contido, sincero, dotado de um poder que me impulsionava a conhecer tudo sobre aquela jovem mulher. Os cabelos negros combinavam com os olhos meigos e carinhosos. Ela estava à mesa com uma amiga, de quem eu enxergava apenas os cabelos castanhos.

Como se todo o resto passasse em câmera lenta, agarrei meu copo e, já me levantando, sorvi o último gole. Um amigo perguntou a razão para eu me erguer, e o único fio de coragem que residia em meu corpo se esvaiu junto de sua voz. Segui até o banheiro para disfarçar. Assim que retornei ao salão, sorri ao enxergá-la. Havia algo mais nela; algo que eu não sabia o que era, mas que adoraria descobrir. Com o passar das horas, me distraí com a conversa animada entre os amigos.

Chegado o momento de ir embora, me dirigi até o caixa. A mesa da jovem apaixonante ficava no caminho, e uma esperança infantil me tomou quando me aproximei. Enquanto passava por ela, seus olhos dançaram até os meus. Senti-me hipnotizado. A alma por detrás dos olhos azuis me capturou. Respirei fundo e virei para frente, retirando a carteira do bolso. Então ouvi meu nome ser chamado.

Virei por reflexo e encontrei o sorriso de uma amiga há muito não vista. Abracei-a e, durante os protocolares questionamentos sobre a vida, observei o lugar vazio em frente à jovem que me encantara. Minha alma sorriu quando fui convidado a me sentar com as duas.

– Essa é Ágata – disse minha amiga.

No momento que ouvi a voz doce, senti-me sem chão. Não pude evitar a alegria que estampou meu rosto. A jovem encantadora sorriu com timidez enquanto encolhia os pequenos ombros.       

                  

O pouco escrito bastou para preencher meus sentimentos. Sabia como gostaria que o restante corresse. Não precisaria escrever para vivenciar aquela mulher quantas vezes desejasse. Havia eternizado um lindo e promissor início e escolhido um nome. Assim, arranquei a folha e coloquei-a de lado. Decidi começar uma nova história. Era a vez de Ágata se sentir completa. Levei o lápis até a folha. Ostentava um sorriso que refletia a oportunidade de conviver com ela a cada palavra criada.

No entanto, a dúvida me assolou. Nada imaginado parecia correto. Ela deveria seguir comigo. Precisava prosseguir a nossa história. Retomei a folha escrita com nosso encontro e a encarei, largando o lápis sobre a mesa. Deveria seguir escrevendo uma história que eu sabia como continuaria? Deveria deixá-la presa a mim, lembrando-me de um passado doloroso? Fitei outra vez o retrato sobre a escrivaninha. Era gigantesca a vontade de perpetuar a história de Ágata junto à minha. Paixões passadas misturadas e perdidas em meio à tão cativante criação. Suspirei. Ela precisava partir, precisava viver sua própria história. Afastei a folha já escrita e me concentrei na vazia. Logo o lápis passou a se mover. 

 

Um cavalo seguia lento em meio à escuridão. Montada nele, uma figura de capa roxa cujo comprimento escondia o lombo do animal. Metros atrás, corpos jaziam no chão, e outros cavalos pastavam encilhados ao redor. O vulto roxo parecia prestes a cair de fraqueza, pendendo para os lados a cada passada do cavalo. Então despertou. Seus pulsos, ornados com algemas rompidas, agarraram as rédeas e ordenaram um trote de volta ao amontoado de corpos. Ela desmontou e baixou seu capuz, deixando à mostra os longos cabelos negros e os olhos azuis, atraentes como profundas águas desconhecidas. Moveu o queixo para todos os lados, sem encontrar o que procurava. Estava cansada e ferida, mas precisava persistir na busca.

De repente enxergou um brilho sob um dos corpos. Esboçou um sorriso, revelando covas em seu belo rosto. Moveu o pesado corpanzil sem vida e agarrou seu cajado como se bebesse a última gota d’água em um deserto. Apoiou-se na arma e analisou de perto a beleza da pedra em sua ponta. Uma linda esfera de ágata-azul. Sentiu-se revigorada e montou no cavalo. Acariciou seu pescoço e estabeleceu um trote rápido, erguendo seu cajado contra a escuridão.

Logo o belo animal já corria pela negra floresta, e o cajado irradiava uma linda e hipnotizante luz azul. E Ágata, cada vez mais imponente, seguiu rompendo a escuridão da floresta como uma estrela soberana.

 

Afastei o lápis da folha com um sorriso bobo. Agarrei o retrato no canto da escrivaninha, ignorando a tristeza que ele costumava despertar. Retirei a foto da moldura e a analisei uma última vez. Os cabelos negros, as pequenas covas, os olhos azuis. Ainda sorrindo, joguei a imagem no lixo, deixando-a repousar junto de rascunhos amassados e restos de lápis apontados.

De imediato, soube que continuaria a história de Ágata. No entanto, não sabia o motivo de tê-la colocado em um universo tão longínquo, um universo ficcional de tantos perigos. Talvez lá ela estivesse livre, compreendida apenas por mim. Acabei por transformá-la para que se encaixasse no novo mundo, fortalecendo-a em todos os aspectos. Ainda assim, sua essência continuaria. Cada vez mais modificada por novas histórias, ela se tornou uma importante musa. Uma mulher na qual me inspiro, mas que também acaba por me transformar; minha guia através dos tempos de angústia; minha, e para sempre minha, Ágata.

FIM

Se deseja ler mais contos e notícias de Rodrigo B. Scop: