Águia Azul

Thu Apr 15 2021 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Despertei como arcana quando eu tinha nove anos, em um final de tarde frio e chuvoso. Após roubar três cenouras, corri para o lado errado e entrei em um beco. Era a primeira vez que a fome me afligia de maneira devastadora. Um estalajadeiro que costumava me alimentar tinha morrido, e um charcuteiro que me concedia retalhos de carne tinha vendido seu negócio e mudado de cidade.

Tentei explicar minha situação de órfã recente e inquilina de armazéns abandonados para os dois guardas em meu encalço, mas eles pouco se importaram. Ofereci as cenouras de volta, e os dois sorriram com malícia. Quando o mais alto deles ergueu seu porrete de madeira, tentei esquivar. O golpe atingiu meu ombro, e eu caí indefesa no pavimento de pedra. As cenouras voaram longe. O outro homem avançou com a arma em riste. Tomada por um completo desespero, apenas ergui as mãos em súplica.

Nada me atingiu. Ao abrir os olhos, deparei-me com os guardas fascinados por uma entidade azul que circulava entre eles. A cabeça era de uma águia, e o corpo translúcido se desfazia em luz azul. Ostentando sorrisos abobalhados, os dois pareciam incapazes de desviar a atenção do animal espectral. Os porretes quase escorregavam pelos dedos relaxados, e eles pareciam ter esquecido da minha presença. Com pressa, juntei as cenouras e fugi.

Após meia dúzia de ocorrências de minhas habilidades, reconheci em mim uma arcana e aguardei a vinda de representantes da Mão Arcana. Todos sabiam que a ordem enviava agentes para o recrutamento de jovens cujos poderes recém tinham despertado. Entretanto, eles nunca vieram. Não sei se ninguém os informou sobre mim, ou se não existiu interesse em minhas capacidades.

Terminei por treinar sozinha o melhor que pude, enquanto sobrevivia nas ruas de Benthaya. Não sou uma grande arcana, mas existe boa demanda por meus serviços. Com os pagamentos, aprendi as letras, os números e o manejo de adagas e espadas curtas.

Hoje poucos conhecem meu rosto. O nome Gaddyazul, por outro lado, corre toda a região como sinônimo de ardil e ousadia.

Arte: Ken Shin Park (ArtStation)

 
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