A Busca

Mon Sep 07 2020 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Os anos de procura trouxeram mais decepção do que esperança. Vingança, então, nunca entrou no alcance de uma de minhas lâminas. Dias infinitos remoendo o passado, imaginando a morte dos responsáveis pelo meu sofrimento. “Meia década é tempo demais”, ouço toda vez que revelo ou reafirmo meus sentimentos e propósitos em um vilarejo qualquer da região. A maioria já me conhece. Percorro as mesmas rotas em busca dos assassinos de minha filha.

Talvez eles estejam mortos, talvez nunca retornem a estas terras, talvez não procurem mais escravos para as outras raças que vivem a partir da Cordilheira Escudo. Talvez eu os conheça e os trate bem, desavisado sobre suas caçadas ilegais. Assim como a dor, a raiva e o luto, a dúvida cavalga comigo. Quando ela cresce ao ponto de esmorecer meu ímpeto vingativo, retorno para o local da tragédia que me mudou para sempre.

Junto de dois amigos, minha filha jazia ensanguentada e mutilada nas poças salgadas da praia na qual costumava brincar. Uma fenda sangrenta marcava a sua pele macia da cintura ao ombro. A conclusão foi a de que o trio resistiu demais a um sequestro. Outras cinco crianças nunca foram encontradas.

Ela era o músculo por trás de cada um dos meus sorrisos, o alimento para a minha vontade. Tudo se esvaiu com a sua morte. Até mesmo a minha esposa, que preferiu partir na tentativa de enterrar as lembranças doloridas.

Eu permaneci aqui, rondando as praias pedregosas que passam a maior parte do ano inundadas pelo mar gelado, subindo e descendo rochedos, atravessando prados repletos de cabras. Já persegui diferentes grupos de escravizadores, mas não o correto. As torturas aplicadas pelos soldados do reino servem de garantia.

Preciso seguir acreditando em um encontro com os sequestradores, em uma futura satisfação irada. No dia que eu desistir, o mar receberá meu corpo. Sem ter o espírito liberado da carne pelo fogo, receberei a punição por minha falha, por minha incompetência. Uma prisão gélida. Até o dia que meu cadáver for cuspido pelas ondas e encontrado inerte em uma poça salgada de uma praia rochosa.



Arte: Jakub Rozalski (ArtStation)