Abordagem Noturna

Mon Nov 30 2020 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

O vento soprava ameno, e a tripulação do Arrevoada Anil trabalhava sob o céu estrelado para consertar o mastro. A tempestade da noite anterior os havia desviado da rota mercante e castigado a embarcação. O capitão Orgad cantarolava uma melodia tranquila com seus subalternos quando luzes flamejantes surgiram próximas na escuridão marinha. Elas assobiaram velozes, cravando-se no casco, ateando fogo às velas enroladas sobre o convés, perfurando carne e roupas simplórias.

– Preparem as armas – bradou o capitão, forçando os olhos à procura de outras embarcações inimigas no horizonte. – Lutem por nossas vidas!

Com a próxima saraivada de flechas, percebeu-se a presença de apenas um navio inimigo. Ele contornou o Arrevoada Anil com cadência elegante por duas vezes, enquanto novas setas dizimavam a moral e ceifavam vidas. Quando a abordagem enfim ocorreu, Orgad estava caído próximo à proa, com uma flecha alojada na coxa esquerda. Alguns dos tripulantes brandiram espadas contra os piratas, mas nada conseguiram além de uma morte rápida.

Enquanto as botas invasoras se espalhavam por seu navio, o capitão ponderou se não deveria ter ordenado uma fuga. Mesmo com os remadores ainda exaustos pelo recente embate contra as ondas, talvez houvesse uma chance. Ele riu com amargor ao pensar em outra possibilidade. Talvez os deuses já tivessem decidido a escravidão como o seu destino.

– Lista de mercadorias, planos de navegação e esconderijos no navio – exigiu uma mulher alta de olhar implacável ao apontar uma espada para a garganta de Orgad. – É inútil resistir. Tudo e todos agora pertencem aos Farejadores.

O nome do bando de piratas reverberou nas entranhas do capitão, que nada escondeu. As histórias sobre os crimes dos Farejadores ultrapassavam até mesmo os limites do Mar Dourado, e Orgad sequer considerou resistir.

Quando o Arrevoada Anil foi deixado para trás ardendo em chamas, Orgad chorou. Ele não sabia para onde seria levado, nem para quem seria vendido. Sabia apenas que sua vida como capitão e homem livre havia encontrado um fim.

Arte: Dmitri Kali (ArtStation)