Abraço Familiar

Mon Jul 19 2021 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Arte: Adam Isailovic

– Majestade – disse Ardollar, ajoelhando-se perante o trono. – Os inimigos tomaram Cruz Anil.

O rei levou sua mão ao queixo e agarrou a barba volumosa, mas não se levantou. Permaneceu escorado no encosto do trono, encarando o sobrinho com olhos imersos em um vazio pensativo.

– Você havia dito que eles não arriscariam entrar tão fundo em nosso território, que permaneceriam na fronteira, que conquistariam apenas as fortalezas mais próximas para tentar defendê-las melhor.

Ardollar mordeu o lábio inferior e curvou ainda mais o corpo.

– Sinto muito, Majestade. A ação deles não faz sentido. Nós os cercaremos com facilidade, poderemos até mesmo deixar os inimigos em Cruz Anil morrerem de fome enquanto expulsamos o resto das forças invasoras de nossas terras.

– Isso seria ótimo – disse o rei, levantando com um sorriso. – Seria a chance de você se redimir.

O governante abriu os braços e desceu os degraus diante do trono, sustentando um semblante descontraído.

– Gosto de você, Ardollar – continuou o rei. – Não apenas por ser filho de minha irmã, mas também pela sua contribuição a este reino.

O soberano segurou o sobrinho pelos ombros e o puxou para cima, abraçando-o com firmeza. Ardollar suspirou, afastando parte do medo de contar ao tio sobre a sua falha. Ele sequer havia cogitado que o exército inimigo pudesse avançar até Cruz Anil, uma localidade que decerto não conseguiriam manter. E as fortalezas haviam recebido reforços consoante os seus conselhos.

– Entretanto, essa sua falha custará caro à coroa – retomou o rei, ao pé do ouvido do sobrinho. – Além das vidas e riquezas perdidas em Cruz Anil, os custos de manter um cerco enquanto expulsamos os invasores será alto. Os condes reclamarão do erro, e eu perderei autoridade. Alguém precisa ser punido.

Ardollar tentou escapar do abraço ao perceber a entonação das palavras, mas seu tio o prendeu com ferocidade. Então uma dor aguda acometeu suas entranhas, e feridas surgiram em sua pele. Ardollar soube que nada poderia salvá-lo. Tossindo sangue sobre o ombro do rei, ele se arrependeu por não ter fugido.

 
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