Chance de Traidor

Tue Mar 30 2021 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Os gritos que ecoam na arena anseiam por minha derrota. Brados alucinados pela morte do traidor à coroa, brados certos de que a areia umedecida por séculos de sangue será meu jazigo. Nem mesmo eu, apesar do desejo de continuar respirando, acredito na chance de alcançar o perdão pela espada.

Quando me jogaram nu diante das arquibancadas lotadas, encarei meus dez oponentes munido apenas com a gana pela sobrevivência. Uma espada de qualidade duvidável me aguardava sobre o solo endurecido por botas e golpes. Porém, permaneci de mãos vazias. A arma se encontrava próxima demais dos outros guerreiros para não representar uma armadilha. Meu irmão não arriscaria sua honra real ao ordenar que todos os guerreiros me atacassem de uma vez, contrariando nossa tradição, mas sem dúvida teria preparado algumas artimanhas.

Recordo quando era eu ao seu lado, aconselhando-o em assuntos da coroa. Dos banais aos cruciais. Até ele trair o nosso povo, o povo de Veryll. Aumentar impostos e condenar os súditos à fome para sustentar uma guerra inventada por seu ego me fez tramar contra seu reinado. Eu seria um governante melhor. Mais ponderado, mais justo; menos cruel, menos orgulhoso. Entretanto, meu plano de envenená-lo foi descoberto uma noite antes de ser colocado em prática. E aqui estou, lutando pela chance de ser banido de minha terra natal, em vez de empalado e atirado da torre mais alta do castelo real. Graças ao instinto humilhador de meu irmão.

Diante de minha falta de ação, o primeiro dos dez guerreiros da arena avançou com a espada apoiada no ombro direito. Assim que ele moveu os braços para lançar um golpe descendente contra meu pescoço, dei um passo para o lado e dois adiante. Não fui rápido o suficiente para evitar que a ponta da arma rasgasse a minha coxa esquerda, mas consegui agarrar seus pulsos, girar e puxar a espada para meu domínio. Dilacerei sua garganta em um movimento ágil, e a multidão gritou em desapontamento.

Corri os olhos do sangue escorrendo em minha coxa para meu próximo adversário. Mais nove vitórias para uma sobrevivência árdua longe de meu lar.

Arte: Pasi Juhola (ArtStation)

 
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