Dia de Sorte

Tue Mar 16 2021 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Sou um homem abençoado pelos deuses. Dos que surgem a cada milênio, e cuja história será passada entre gerações. Não fiz mais do que meus companheiros para merecer a glória. Rezei pela sobrevivência, pela vitória, pelo respiro fresco longe do odor férrico dos mortos. E também brandi espada e ergui escudo em um frenesi esperançoso, ciente de que minha vida dependia da queda sangrenta de cada inimigo.

Sequer me recordo quando três flechas se alojaram em meu escudo. Se elas chegaram em sequência ao me aproximar das bordas do confronto, se me encontraram em fases diferentes da batalha. Porém, lembro bem das outras duas, cujas pontas ainda ferem minhas costas. Elas me atingiram quando pouco restava de ambos os exércitos, quando todos perceberam que não haveria retirada ou prisioneiros, apenas heróis e cadáveres.

Embalado por uma fúria alucinante, corri até o soldado com arco que havia me alvejado. Após derrubá-lo, amassei seu rosto com minhas luvas reforçada por metal. Ele precisou se proteger de golpes de outro soldado, e não foi difícil alcançá-lo por trás. Ao me erguer triunfante, mergulhei outra vez no embate. Para todos os lados, homens e mulheres gritavam e gemiam pelo esforço e pela dor. A terra empapada de sangue mal podia ser vista, coberta por guerreiros mutilados e imóveis. Já não existiam comandos, formações ou estratégias. Tratava-se de atacar e de defender enquanto o fôlego persistia. E de sorte. Muita sorte.

Após talhar o pescoço de um soldado adversário, girei à procura de um próximo alvo. Nada encontrei, além de brados e braços esticados clamando por ajuda. O clangor de aço contra aço havia cessado, e eu era o único ainda de pé. O último em condições de combate, um herói forjado pelo acaso em um vale fedendo à morte. Até a voz falhar, berrei todo o meu desespero e alívio. Então passei a vagar pelo campo de batalha à procura de aliados com poucos ferimentos e de inimigos a executar.

Ainda não somos uma dúzia, mas já entoam meu nome e me concedem uma alcunha. Lished, O Sobrevivente.

Arte: Maciej Drabik (ArtStation)

 
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