Estímulo Sangrento

Tue Mar 09 2021 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

A vida adquire outro significado quando possuímos para quem voltar após uma longa viagem. Um aroma familiar para preencher os pulmões, um sorriso para apaziguar os anseios. Alguém para abraçar e proteger, seja esposa, filhos, pais ou irmãos. Já muito experimentei tal sensação. Não mais.

Nada me agradava tanto quanto encontrar Ereya em cada retorno à Taraggan. As lâminas e os golpes ficavam para trás, e a responsabilidade pela sobrevivência dos subalternos cessava até a missão seguinte. Um sopro tranquilo em meio às noites de murmúrios e sangue.

Enquanto eu espalhava caos pelas estradas de outro condado, uma tentativa de assassinato levou Ereya para sempre. Eu sequer estive em Taraggan no funeral, quando o fogo libertou seu espírito da carne mutilada. Ela não era o alvo dos assassinos, apenas uma servente percorrendo corredores de pedra para satisfazer sua senhora insone. Disseram que seus gritos alertaram os guardas e salvaram Urghan, nosso conde. E que o valor de seu sacrifício tornou óbvia a minha dispensa de missões comuns de roubo e sabotagem.

Ontem, declararam-me livre para agir consoante os ditames de minha fúria vingativa. Meus superiores conhecem o quão implacável e cruel posso ser com o incentivo certo. E não há estímulo maior do que a perda do último amor na vida de um guerreiro. A cada galope para longe de Taraggan, imagino estômagos desprovidos de entranhas, miolos vazando por crânios esmagados, bocas estáticas e frias em agonia. Gritos eternamente perdidos por minha causa, por meus golpes. De camponeses a nobres, de inocentes a culpados, de idosos a crianças. Defecarei sobre seus corpos, lavarei minha alma com seu sangue. Nada restará intocado por minhas lâminas e por minha arcania.

Quando eu terminar, Urghan sairá rei desta guerra civil. E todos tremerão ante o nome Dyaug, o Dragão de Luz.

Arte: Mateusz Michalski (ArtStation)