Ilha Osdean

Mon Sep 28 2020 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

A imensidão de rochas escuras parecia resmungar que eu não pertencia às suas planícies. Tampouco meu cavalo. Nada se movia, nenhuma criatura viva cruzava nosso caminho. Nem mesmo uma serpente ou um pássaro esfomeado. Sopros quentes deixavam o solo em rompantes ruidosos, e, desde o início de minha ronda, a ilha havia tremido duas vezes.

Conforme histórias antigas, Osdean foi arquitetada como um ponto de encontro agradável para os astranni, os deuses-elemento. Uma mistura austera de frio e calor, de ventos terrosos e chuvas ácidas. Talvez apenas os dragões tenham sido criados para suportar o clima e o terreno, ainda que nem mesmo eles ocupem mais a ilha.

Em meu trajeto, enxerguei dois deles no horizonte, planando minúsculos ao norte, decerto fora dos limites de Osdean. Ao avistá-los, soube que teria algo a reportar quando alcançasse meu destino na costa leste. Nenhuma mudança, nenhum dragão mais ao sul do que o averiguado na última ronda. No entanto, tal fato não impediu que meu serviço na ilha me marcasse para sempre.

Próximo de meu destino, o solo abriu de súbito. Junto à estrada assinalada no terreno poeirento, onde não deveria existir perigo. O cavalo emborcou para a direita, lutando para se manter de pé, para encontrar um novo ponto de apoio. Tentei manter o equilíbrio, inclinando o corpo para o lado oposto. Foi minha sorte. Uma lufada fervilhante brotou da pequena cratera, escaldando tudo em seu caminho. O flanco da montaria, uma de minhas pernas, meu braço direito. A pressão do jorro nos restabeleceu na estrada, e o cavalo disparou em agonia.

Com membros tremendo e fumegando, consegui me manter na sela até o posto da guarda, composto por uma torre, um trapiche e um barco. Enquanto quatro soldados se revezavam entre tratar meus ferimentos e os da montaria, eu bebia aguardente.

– Nove habitantes em Osdean, apenas quatro incólumes – reclamou um de meus companheiros.

– Mais dois sextantes de vigília – resmungou nosso capitão. – Se os deuses quiserem, ninguém mais morrerá. Talvez apenas o cavalo.


Arte: Imad Awan (ArtStation)