O Vulto Mascarado

Wed May 26 2021 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Arte: Mark Makovey

A natureza gélida passava rápido pelos meus olhos enquanto eu corria para evitar um confronto. Peludo se mantinha próximo, ora abrindo caminho entre arbustos, ora observando a retaguarda. Eu o havia criado desde quando ele mal era capaz de uivar, e nunca nos afastávamos.

Ao tentar desviar de uma árvore, meus pés prenderam em raízes retorcidas. Caí no chão com violência, e Peludo parou para me proteger enquanto eu levantava. Apesar da pressa, não fui veloz o suficiente para retomar a fuga antes de sermos alcançados.
Peludo enxergou o vulto mascarado passar atrás de uma pedra e não aguardou meu comando. Ele avançou com os dentes arreganhados, feroz em seu instinto protetor, erguendo-se nas patas traseiras para atingir o pescoço do alvo. O perseguidor se abaixou com agilidade e cravou uma lança curta no abdômen macio do meu amigo. Ganindo, Peludo tombou para o lado, e o mascarado desceu o machado contra a sua garganta.

– Você teve a chance de vender o lobo – disse ele, enquanto eu desembainhava a minha espada. – Era uma oferta justa, e ninguém pode vagar com uma criatura perigosa por aqui. Exceto os homens do conde, é claro.

Com lágrimas congelando em minha face, lancei um ataque horizontal. O mascarado aparou o golpe com a lâmina do machado e avançou dois passos para acertar meu rosto com a ponta inferior do cabo da arma. Recuei e rodei no terreno, tentando puxar a espada para atingir o inimigo na lateral do quadril. Porém, ele me acompanhou no movimento de pernas, girou um pouco o corpo e deslizou sua lâmina curva por meus antebraços.
Soltei a espada diante da dor, mas aproveitei que ele estava um pouco de lado para sacar uma adaga de trás da cintura. Grudando meu peito em suas costas, usei um braço para prender o cotovelo de sua mão principal enquanto cravava a adaga em seu pescoço. Ele arrefeceu devagar, sentindo minha respiração em seu ouvido.

Retornei para casa carregando o cadáver de Peludo, para que o fogo pudesse libertar sua alma da prisão carnal. Ao longo do trajeto, rezei para que a neve ocultasse o corpo do mascarado para sempre. Ele merecia a prisão eterna.