Passagem Segura

Wed Jun 23 2021 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Arte: Jari Leliveld

– O que vocês desejam? – perguntou Nyrga, assim que os dois visitantes subiram a rampa externa até o último andar de sua cabana.

– Soubemos que você é capaz de evitar as rondas dos gaeshfargan ao guiar viajantes pela Floresta de Ishdaeg – respondeu uma mulher loira, enquanto seu companheiro permanecia calado. – Nós somos comerciantes, possuímos uma oferta de negócios para os vultur, mas não temos tempo para enviar uma requisição formal de encontro para garantir passagem segura pela floresta.

Nyrga se colocou atrás de seu enorme cajado e observou os visitantes. Eles se vestiam como mercadores preparados para um eventual combate leve, mas agiam com a altivez dos guerreiros e observavam cada um de seus movimentos com a atenção nervosa dos mentirosos. Talvez até ocultassem habilidades arcanas.

– Que oferta vocês têm para os vultur?

– Trocas frequentes de couro por plantas que eles colhem nos penhascos das Montanhas Selvagens.

Inflando os pulmões, Nyrga rebateu:

– Vocês tem certeza de que não se trata da vontade de caçá-los para vender suas penas e asas?

Os dois visitantes desviaram o olhar, e ela soube que havia acertado. Diferentes partes corporais dos vultur, a raça selvagem que se assemelhava aos condores, possuíam grande valor entre colecionadores escusos espalhados pelo mundo.

– Certeza absoluta – respondeu a mulher, tentando transparecer calma. – Você pode nos ajudar?

Nyrga balançou a cabeça para os lados e aguardou por um ataque. No entanto, os visitantes sequer realizaram movimentos bruscos.

– Nós pagaremos bem – insistiu a mulher.

– É melhor vocês irem embora.

Assim que terminou de proferir as palavras, Nyrga segurou seu cajado com ambas as mãos e se concentrou. Do lado de fora da cabana, troncos e galhos se moveram, e um rangido sinistro ecoou pela noite enluarada.

– Não me façam utilizar arcanias – grunhiu Nyrga.

Os visitantes ergueram os braços e se afastaram. Quando estavam prestes a sumir pela rampa, a mulher resmungou:

– Nós encontraremos outra maneira.

– Talvez. Mas ao menos não será em minha consciência que suas vítimas pesarão.

 
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