Pintura do Passado

Wed May 12 2021 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Arte: John Wallin Liberto

A pintura de Igtreya, a Raposa Prateada, vigiava o casal que se mexia animado sob as cobertas de pele da cama real. Abaixo da figura na parede, uma lareira abrandava o frio do inverno. Quando os amantes pararam para recuperar o fôlego, a rainha Igdaya esticou o braço até a taça de vinho apoiada na mesa de cabeceira. Ao virar outra vez para Boryg, ela notou a curiosidade com a qual ele mirava a pintura de sua ancestral.
– Sua bisavó é quase tão cultuada quanto os deuses por aqui. Você não se questiona se ela fez por merecer tamanho reconhecimento?
– Você não ouviu os relatos?
– Menestréis aumentam fatos em prol de suas canções, e casas nobres fortalecem seu presente a partir de feitos grandiosos do passado.
– Então você julga que as glórias de Igtreya são um exagero – grunhiu a rainha, após beber um gole do vinho. – Eis uma história que ouvi de minha própria avó, uma história pouco conhecida. Igtreya e ela passeavam pelo jardim leste quando ouviram uma movimentação estranha. Minha avó ainda era uma criança, e Igtreya a escondeu em um arbusto. Não demorou para cinco homens armados com espadas e lanças aparecerem metros adiante. Em vez de buscar ajuda e preservar sua vida, Igtreya marchou contra os invasores, que começavam a matar alguns servos trabalhando no jardim. Ela sempre carregava consigo um escudo e uma espada. Sozinha, derrotou todos eles com golpes ágeis e giros habilidosos sem sofrer um arranhão sequer. Ela protegia todos nós, sem distinção, e reergueu nosso reino após décadas difíceis.
– Mesmo que ela tenha sido magnífica, viver do passado pode ser perigoso – comentou Boryg. – Em especial se o presente não fizer jus a ele.
A rainha Igdaya fitou o amante nos olhos.
– Posso não brandir uma espada como a minha avó, mas possuo a lealdade de todos neste castelo. Não pense que sou menos que ela, nem tente influenciar meu governo por me julgar fraca. Se o fizer, você talvez seja mergulhado aos pedaços em um barril de dejetos. Sempre haverá outro consorte para ocupar a cadeira ao meu lado em banquetes e bailes.
Com um sorriso trêmulo, Boryg beijou a rainha.