Retorno Sofrido

Mon Sep 14 2020 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

O capitão Ardall não gostava dos retornos para sua cidade. Ele preferia lidar com o brandir de espadas e com o clangor do metal, não com as consequências da guerra. O sofrimento de seus conterrâneos costumava deixá-lo melancólico e saudoso de campanhas militares anteriores. Ao passar por entre as estátuas de dois antigos heróis do reino, o capitão desacelerou seu cavalo e o conduziu para o canto lamacento da estrada, como se cruzar por último o portão adiasse de forma substancial os deveres que o aguardavam.

Observou seus subalternos e superiores de exército o ultrapassarem. Os braços decepados, os crânios enfaixados, os rostos abatidos pela recente derrota. Recordou a disputa ferrenha na parede de escudos, o esforço para empurrar e para se manter em pé. Fez uma careta ao lembrar de Mard, seu amigo e irmão de armas que havia perecido ante o impacto de um machado em seus olhos e nariz. Outro soldado à direita não o protegera com perícia suficiente no uso do escudo. Uma lança havia errado Ardall por pouco quando Mard caíra morto ao seu lado. Com outro homem fechando o espaço na parede de escudos, a batalha prosseguira até a chegada de reforços inimigos e a necessidade de uma fuga.

De todos os deveres trazidos pela guerra, Ardall era mais afetado pelo de informar a família dos mortos. Encarar pais, mães, esposas e filhos ao entregar a notícia de que um parente amado não retornou vivo de um combate. No caso de Mard, nem mesmo seu cadáver. Ele seria cremado em uma pilha de corpos inimigos recolhidos do campo de batalha pelos vencedores.

Com um suspiro resignado, o capitão esporeou sua montaria e se juntou ao final da linha que ingressava na cidade. De imediato, iniciou sua função de arauto do luto e do sofrimento. Conhecia o local de moradia e as famílias de cada um dos soldados pelos quais era responsável. Ao bater à porta da antiga residência de Mard, uma mulher aflita o recebeu.
Ardall não precisou falar. Suas expressões bastaram para que a viúva de Mard caísse de joelhos e urrasse em prantos.


Arte: Xingchang Xiao (ArtStation)

 
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