Vida Venenosa

Tue Mar 23 2021 03:00:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Refletindo sobre seu acordo com o rei Igron, Byesha pressionou flores amareladas entre seus dedos. Largou-as de volta na cumbuca de madeira à sua frente e preparou os demais ingredientes necessários para a mistura venenosa. Separou pequenos frascos com cogumelos, seivas, frutos e vinho.

Ela não era uma arcana verde, uma dotada de conexões e poderes vinculados à natureza, mas conhecia as capacidades de muitos produtos. Havia até mesmo estudado por um período em Akinddur, entre homens e mulheres com habilidades arcanas. No entanto, tal experiência havia ficado para trás, e ela agora vivia sozinha, escondida de quase todos, nutrindo suas paixões e servindo aos propósitos do governante de Ibanthar.

Byesha havia escolhido o próprio caminho. A convivência com outros nunca fora prazerosa. Barganhando a partir de suas capacidades com ervas e misturas, convencera Igron a aceitá-la sob seu serviço. Em troca de abrigo e isolamento na floresta, havia oferecido a ausência de escrúpulos. O que o governante desejasse, ela faria. Passara a morar em um abrigo construído em uma caverna, com seus livros e ingredientes, suprindo a demanda crescente de Igron por venenos com diferentes efeitos.

Ela nunca havia imaginado que os seus conhecimentos seriam tão exigidos. Quando fizera o acordo com o rei, havia calculado a morte de poucas dezenas até o final de sua vida. Porém, o número já se aproximava de uma centena, e Byesha ainda possuía muitos anos de saúde pela frente.

Ao perceber que certo arrependimento começava a se formar no fundo de sua mente, ela pausou a produção do veneno e olhou ao redor. Para todos os livros e pergaminhos lidos, para as sementes plantadas e flores cultivadas, para a ausência de barulhos que pudessem distrair suas divagações.

Então deu de ombros. Mais alguém morreria, mas ela permaneceria por mais tempo na floresta, vivendo seu sonho.

Arte: David Frasheski (ArtStation)