Relatos de um Comissário Arcano: O Jantar de Recepção

+Rodrigo B. Scop+

Meus cumprimentos a todos os membros da Assembleia. Ainda não recebi qualquer retorno sobre meu primeiro relato, mas decidi não aguardar para produzir um novo. Preciso contar tudo que ocorreu no jantar de recepção no castelo do rei Gaffenir Landdarion antes que a rotina atribulada no reino de Wangalyr me leve a esquecer de alguns detalhes.

Ainda no dia 27 do sextante de Argaw-Unariel de 1452, após o sucesso da primeira missão dada pelo rei, retornei para nossa sede na Praça da Justiça. Móveis ainda eram movimentados, e secretários e arcanos começavam a se assentar, mas consegui me lavar e me vestir para a ocasião. Preciso admitir que o traje formal de comissário causa muito impacto. A pesada e longa túnica arroxeada com detalhes dourados fez com que todos me encarassem com respeito, admiração e temor. Desde o cocheiro que me conduziu pelas ruas de Gornyn após o anoitecer até os soldados e nobres que me recepcionaram no castelo real.

Para não demonstrar qualquer temor ou anseio, levei comigo apenas Narius. Aliás, para evitar o risco de não mencionar essa sugestão adiante no relato, gostaria de aconselhar a Assembleia a tornar obrigatório que o secretário atuante de um comissário seja um arcano em vez de deixar à discrição de cada um. Estou ciente de que existe um número limitado de arcanos e de que poderia ser um desperdício alocá-los como secretários, mas acontecimentos corroboram minha sugestão. A Assembleia recorda a situação envolvendo o comissário anterior do reino de Alyzair? Mantenham a recomendação em mente no decorrer desse relato. Para nossa sorte, Narius também é um arcano, e ele sequer é tão habilidoso. Antes que me julguem grosseiro por comentar sobre as habilidades de Narius, informo que ele não se encontra no ambiente. Ele está resolvendo algumas incongruências na distribuição das primeiras patrulhas arcanas que circularão por Gornyn.

[Pigarreio].

No pátio frontal do castelo, próximo da entrada para a construção principal, nós fomos recebidos pelo ministro da justiça Bernast Fadillien e pelo comandante Itallon Carppan, que portava sua espada de bainha e empunhadura ornadas com imagens de dragões. Em vez das túnicas coloridas com as quais haviam me recepcionado no porto, trajavam peças vistosas de tecido fino com linhas laterais prateadas. A do ministro era marrom e carregava no peito o símbolo de um crocodilo emergindo da água com a boca escancarada, enquanto a do comandante era preta e ostentava um crânio de dragão.

– Este é Narius – apresentei com um gesto, após cumprimentar os nobres com uma breve mesura. – Estavam me aguardando?

– Sim, comissário Naegthar – respondeu Bernast. – O rei Gaffenir julgou prudente servirmos como seus guias essa noite. Tanto para apresentá-lo a todos quanto para impedi-los de lhe importunar.

– Imagino que não estejam felizes – comentei com humor.

Itallon Carppan não se moveu, mas Bernast Fadillien balançou a cabeça para os lados.

– Será uma honra acompanhá-lo e introduzi-lo aos principais nobres do reino – garantiu o ministro da justiça. – Muitos vieram ao banquete de recepção apenas para conhecê-lo, comissário. Por favor, por aqui.

Acompanhado por Narius, segui Bernast por largos corredores cheios de serviçais apressados e alguns convidados curiosos. Após passarmos pelo acesso a uma sala vazia, me aproximei de Itallon:

– Comandante, se me permite a pergunta, fiquei curioso mais cedo. Por que estava desarmado quando nos conhecemos no porto? E agora, dentro do castelo, carrega sua espada?

O homem me fitou sem diminuir as passadas altivas.

– Como você já percebeu, parte do povo resiste ao acordo com a Mão Arcana. Outra porção concorda. O restante não sabe como pensar. Entretanto, em todos os grupos há pessoas que temem conflitos, sangue nas ruas, caos na cidade. Quando o comandante do exército real caminha sem sua arma, ele tranquiliza os sobressaltados. Por essa razão deixei minha espada no castelo para recebê-lo, comissário. Passar a segurança de que a vontade do rei não é questionada, que nada poderá se opor à atuação dos arcanos em Wangalyr, que a população não precisa se preocupar.

– No entanto todos deveriam se manter atentos – rebati, descontraído. – Ou Sardonn era o único com influência suficiente para causar problemas?

– Não o único, mas o principal entre o povo de Gornyn – resmungou Bernast Fadillien.

Itallon concordou. Algo em seu rosto magro me deixou inquieto. Ele se adiantou e sinalizou para um homem em roupas azul e cinza na entrada de um enorme salão. O arauto se apressou em virar para dentro do ambiente cheio, soprar duas vezes uma corneta e bradar:

– Atenção para nosso convidado especial da noite, comissário Naegthar de Deffand, cujo conhecimento e habilidade de renome ajudarão o reino de Wangalyr a partir de hoje.

O arauto se voltou para mim e, com uma profunda mesura, liberou o caminho adiante. Quando coloquei os pés no salão através das amplas portas duplas escancaradas, fui recepcionado por uma onda de aplausos. O ambiente estava cheio, e eu sequer enxerguei todos que me aclamavam. Notei que alguns não se juntaram ao coro, permanecendo neutros, como se não possuíssem posição sobre a presença da Mão Arcana no reino. No entanto, não percebi qualquer careta ameaçadora.

[Água se movendo em recipiente mole].

Faggya, me entregue outra bolsa de água morna antes de dormir. Penso que será a última. Minhas pernas estão quase recuperadas daquela maldita cavalgada.

“Como desejar, Vossa Arcania. Prefere que já leve essa para a cozinha?”

Não é necessário. Fique e ouça o relato. Você é a substituta de Narius, precisa saber sobre algumas questões se algo acontecer com ele.

“Estou aqui para servi-lo, Vossa Arcania.”

Muito bem, retomando. Ainda sob os aplausos, passei a caminhar, agradecendo com sorrisos o reconhecimento de todos, sem saber para que lado seguir. Narius me acompanhava boquiaberto, observando o teto alto, as vestes pomposas e coloridas dos convidados, as tapeçarias nas paredes do ambiente. Elas retratavam batalhas, deuses da Tríade, paisagens do reino de Wangalyr e o símbolo da casa Landdarion, o gavião cinzento em céu límpido. De repente Bernast Fadillien sussurrou ao se aproximar:

– Siga-me.

O ministro da justiça me guiou através do recinto, enquanto Narius e Itallon nos acompanhavam. Os aplausos logo cessaram, e aos poucos o público se dispersou, retornando às conversas em pequenos grupos e às degustações de comidas servidas em bandejas de prata por criados itinerantes. Nas laterais do ambiente, longas mesas repletas de frutas e queijos ostentavam espaços vazios a serem preenchidos pelos pratos principais.

– Comissário Naegthar, lhe apresento Pallyst Fadillien, conde de Grennavir e meu primo – anunciou Bernast, quando alcançamos o fundo do salão.

Ao contrário do ministro da justiça, o conde é alto e esguio. De rosto jovem, usa cabelos negros compridos até os ombros. No peito estava estampado o mesmo símbolo do crocodilo emergindo da água com a boca escancarada. A túnica marrom, entretanto, era mais brilhosa e refinada que a de Bernast. O homem me encarou com expressões analíticas.

– Será um prazer trabalhar a seu lado em prol do reino – disse o conde, apertando minha mão. – Aproveite o banquete.

Antes que eu pudesse responder, Pallyst ergueu sua taça em um brinde de despedida e se afastou, acompanhado de outros três homens e duas mulheres.

– Seu primo não parece feliz com minha presença. Ele é contrário ao acordo de paz arcana? – perguntei, escondendo a insatisfação pela rudeza.

– Pallyst é um homem difícil, mas deseja o bem do reino. Ele compreende a necessidade de ajuda da Mão Arcana. Foi dele a ideia de fazermos o banquete da maneira como vocês fazem em Akinddur, com mesas laterais, convidados de pé e serviçais circulando com comida.

– É uma ótima situação para observar com quem cada um conversa, por quanto tempo e qual o ânimo das palavras – comentei, girando o corpo e analisando o salão cada vez mais barulhento. – Com todos sentados poucos circulam, focados na comida ou com medo de destoarem ao se aproximarem de pessoas em outras mesas.

– Isso talvez entre os arcanos – rebateu o comandante Itallon. – Em Wangalyr ninguém termina um banquete sentado no mesmo lugar. Todos se levantam, dançam, trocam de mesas e se divertem. Mesmo entre rivais.

Forcei um sorriso amarelado, e Narius percebeu meu incômodo. Ele se colocou a minha frente.

– Deseja algo para comer ou beber, Vossa Arcania?

– Vinho e queijo.

Narius assentiu e se afastou na direção de uma das mesas laterais, desviando com pressa de grupos que se deslocavam pelo ambiente.

Antes de continuar o relato, após ter presenciado um banquete às nossas maneiras em um reino comum, gostaria de dizer à Assembleia que talvez nós sejamos um tanto inflexíveis. De pé, os convidados do rei Gaffenir interagiram muito mais do que nós arcanos em diversos banquetes juntos em Akinddur. Isso me levou a considerar se a origem de nosso jeito de promover festas não possui relação com o silêncio completo que repousaria sobre um salão se estivéssemos sentados. Sequer trocaríamos olhares com quem não integrasse nosso próprio grupo político. Talvez sejamos pessoas ranzinzas e birrentas que não sabem como se comportar na presença de um adversário. Uns muito mais que outros. Não é mesmo...

[Tosse forçada].

Algum problema, Faggya?

“Não, Vossa Arcania. Sinto muito. Apenas...”

Pensou que seria prudente não mencionar o nome de Caranghius?

[Risadas com a garganta].

Por suas expressões julgo que era isso. Agora já falei. E mais, a Assembleia sabe como ele é. Se Caranghius não desejava ouvir verdades, que não me colocasse na função de comissário e não me obrigasse a fazer esses relatos orais. Seria muito mais fácil enviar algumas cartas protocolares que você e Narius poderiam escrever. Ou até mesmo usar um espelho enfeitiçado para comunicações rápidas.

“Compreendo, Vossa Arcania. Peço perdão.”

Não há problema. Bom, de volta ao meu jantar de recepção. Narius logo retornou com um enorme pedaço de queijo delicioso. Seco e repleto de cristais salgados. O vinho também era bom. Antes que pudesse esvaziar a primeira taça, o comandante Itallon se afastou e retornou com um homem de cabelos morenos, altura mediana e queixo proeminente que ostentava no peito o mesmo símbolo do crânio de dragão.

– Esse é meu irmão Igallan Carppan, barão de Pedra Sentinela – apresentou o comandante.

– O homem responsável por vigiar a capital de Alyzair – comentei, simpático. – O rei Gaffenir parece confiar em sua casa. Um baronato importante e o comando do exército.

– Sempre fomos fiéis aos Landdarion – respondeu Igallan, empertigando-se. – Estou ansioso para trabalhar com o comissário em prol de Wangalyr.

– É um prazer conhecê-lo, barão.

O nobre fez uma breve mesura e perguntou sobre minhas impressões da cidade. Em seguida o questionei acerca de possíveis animosidades com o reino rival de Alyzair. Continuamos conversando junto do ministro Bernast e do comandante Itallon, enquanto Narius nos observava, buscando vinho e comida quando requisitado. O conteúdo da conversa não merece ser especificado aqui. Foram amenidades e discussões triviais. Outros nobres se aproximaram e se introduziram, cumprimentando-me com cortesia, mas não julgo necessário mencioná-los agora. Desejo apenas que a Assembleia esteja ciente de que fui polido e representei bem a Mão Arcana, fazendo jus à função de comissário, apesar de não gostar de tê-la recebido.

Quando o rei Gaffenir chegou ao salão, todos se ajoelharam por um instante, e eu os imitei. No fundo do recinto, próximo de onde eu conversava com os primos Bernast e os irmãos Carppan, uma enorme cadeira de respaldar alto e entalhado se encontrava sozinha sobre um palanque. No entanto, o rei não ocupou seu assento costumeiro, permanecendo de pé como todos os outros. A seu lado estava a rainha Pyanna. Ela é bonita, com a pele ainda mais escura que a comum à região, mais próxima da tez dos qhorenhos. Os olhos pretos são cintilantes, e os cabelos escuros, ondulados e lustrosos. Trata-se de uma mulher baixa cuja postura altiva parece aumentar-lhe alguns centímetros. Não enxerguei o príncipe Moffern, e confesso que fiquei ressabiado. Era uma mensagem clara sobre sua posição acerca da paz arcana.

O soberano de Wangalyr me introduziu a outros nobres do reino, assim como a importantes e ricos mercadores. Então solicitou que eu explicasse como a Mão Arcana organizava seu auxílio aos diferentes reinos. Como a Assembleia orientou, não entrei em detalhes, relatando de maneira abrangente e rápida, salientando que cada região e situação socioeconômica exige uma abordagem diferenciada. O rei Gaffenir não ficou satisfeito, mas não insistiu em mais informações.

Quando ele pôs fim à nossa conversa, afastando-se com um enorme gole de vinho, sinalizou o desejo por música. Um serviçal se apressou para fora do salão.  Momentos depois, um conjunto de quatro homens e duas mulheres se posicionou em um canto, ao lado de uma das mesas repletas de comida. Além da voz, havia alaúde, flauta, percussão, harpa e rabeca. Eles eram hábeis, e os convidados se alegraram com as canções. Alguns até mesmo passaram a dançar no centro do ambiente. Já imaginaram alguns de nós dançando em nossos banquetes em Akinddur? Cada vez tenho mais certeza de que somos um grupo de arcanos rígidos, rancorosos e nada divertidos.

[Risadas abafadas].

O ápice da alegria dos nobres e mercadores foi a boba e famosa composição “As Margens do Agrittal”, sobre os wangalyeses serem tão melhores que os alyzairanos. Como segui a instrução da Assembleia acerca de não tomar qualquer posição nessa rivalidade, não cantei no salão com os convidados. Farei isso agora. Espero que gostem da minha voz.

[Gargalhadas].

Faggya, você conhece a música, certo? Cantarole a melodia para mim.

[Entonação rítmica alegre].

Perfeito.

 

Nas margens do Agrittal,

Dois povos divergentes.

Irmãos no passado,

Inimigos no presente.

Um dia unificados,

Hoje tudo é diferente.

Ao nos igualar a eles,

Espere perder os dentes.

 

Os tontos do norte

Acreditam ser perfeitos,

Enquanto sequer treinam

Cavaleiros de respeito.

 

Ao norte do Agrittal,

Vivem guerreiros covardes,

Enquanto por Wangalyr,

Morreremos sem alardes.

 

Ao norte do Agrittal,

Bandidos percorrem o prado.

Em nossa terra, entretanto,

Há apenas campos cultivados.

 

Ao norte do Agrittal,

Alardeiam-se finos tecidos,

O produto de fato é péssimo,

Parecem trapos carcomidos.

 

Ao norte do Agrittal,

As mulheres nos fazem chorar,

Aqui temos belas donzelas,

Que só nos fazem alegrar.

 

Os imbecis do norte,

Gabam-se pelo hidromel.

Não tomaríamos aquela merda,

Nem no pior bordel.

 

Obrigado, Faggya.

“Às ordens, Vossa Arcania.”

Eles repetem as estrofes algumas vezes, mas cantei apenas uma. Espero que a Assembleia tenha gostado.

[Risadas com a garganta].

Bom, retomando o relato. Após a canção, os pratos principais foram colocados nas mesas laterais. Havia peixes assados com ervas e batatas, javali com pele crocante ao molho de frutas vermelhas, torta de cordeiro, pedaços de pato com molho de laranja. Se existe algo no qual Gornyn não deixa a desejar em relação à Akinddur é a capacidade dos cozinheiros. Comi bastante, de pé, junto aos demais convidados, trocando palavras triviais com todos que se aproximavam. De repente Narius se inclinou em minha direção e murmurou, cobrindo a boca com a mão:

– Vossa Arcania, uma mulher chamada Erinn deseja conversar a sós. Ela se aproximou quando fui servir mais javali e disse que o espera na cozinha.

Narius apontou com o queixo para uma porta dupla em um dos cantos próximos da entrada do salão. Comuniquei aos nobres em volta que logo retornaria. Itallon Carppan e Bernast Fadillien estranharam, mas não perguntaram para onde eu iria. Deixando Narius para trás, rumei para o encontro com Erinn. A cozinha era um conjunto de ambientes dotados de fogões à lenha, lareiras centrais, bancadas de preparo, barris de ingredientes. Todos interligados por um comprido corredor. Ao seu final, Erinn me encarava com seus olhos negros atentos. Vestia uma capa marrom que lhe cobria o corpo inteiro, mas o capuz estava abaixado, deixando à mostra os cabelos crespos.

– O que faz aqui? – indaguei, após cruzar o corredor e desviar de diferentes serviçais que se apressavam de um lado a outro.

– Pensei que ficaria mais feliz em me ver – brincou a agente do rei.

– Se você veio até aqui e se deu ao trabalho de me retirar do banquete, imagino que não seja um assunto agradável – rebati, verificando os arredores.

Erinn bufou e me puxou por uma passagem até uma estreita e escura despensa repleta de caixotes vazios.

– Você está correndo perigo – sussurrou. – Planejam envenená-lo.

Engoli em seco, mirando Erinn com suspeitas. Não estava surpreso por alguém desejar me matar, mas desconfiava das razões da agente real para me avisar.

– Quem está por trás disso? Como você soube? Por que se esconde para me alertar?

– São muitas perguntas e pouca preocupação – rosnou Erinn.

– Primeiro os detalhes, depois o nervosismo. É um assunto delicado demais para que as emoções ditem meu comportamento.

A agente me fitou com frieza, então ergueu os cantos dos lábios com satisfação.

– Sua racionalidade é o motivo pelo qual o vejo como capaz de ajudar Wangalyr. Não posso arriscar sua morte. O próximo comissário talvez possua um emocional mais instável e um ego mais forte que a ponderação.

– Isso seria provável – sussurrei, inflando o peito. – Então você acredita que eu possa cumprir a função que o rei não deseja para ele. Dureza e violência necessárias enquanto ele surge como herói. – Erinn anuiu. – Depois de apenas uma missão juntos? Você deve compreender minhas reticências sobre sua intenção.

– A escolha de acreditar ou não em minhas palavras é sua. E a responsabilidade pelos resultados também será – resmungou a agente. – Estou aqui para ajudá-lo, mas não posso convencê-lo disso.

Erinn percebeu um criado passando no corredor iluminado e retesou-se nas sombras.

– Muito bem. Quem deseja minha morte? E como pretendem me envenenar?

– Não conseguimos identificar com precisão, mas nós possuímos fortes indícios que apontam para três nobres.

– Nós?

– A inteligência do rei Gaffenir.

– Então o rei sabe da ameaça – grunhi, voltando a checar os arredores.

Erinn gesticulou incerteza, logo complementando:

– O comandante Itallon está ciente. Ele foi comunicado.

Suspirei inquieto.

– Ele pode estar por trás do plano de envenenamento?

– Talvez – ponderou a agente. – Nossos três suspeitos são o conde Pallyst, o príncipe Moffern e o barão Vernyag.

– Não me recordo de ter conhecido esse último – comentei, focando minhas suspeitas no filho do rei.

– É um homem baixo de cabelos castanhos. Possui cerca de quarenta anos e barba longa. Pertence à casa Beffard, cujo símbolo é um sapo verde sobre uma vitória-régia em fundo azul. Barão de Adallyg. – Balancei a cabeça para os lados. – De qualquer forma, ele está no salão. Pode ser ele o mandante. Se eu desejasse envenená-lo, permaneceria longe de você e de toda comida e bebida que consumisse.

– E enviaria um serviçal para o serviço? – Erinn concordou, e fiquei estático por um instante. Então minha voz tremeu: – Posso já ter sido envenenado.

– Não. – Erinn afagou meu braço. – Devem estar aguardando você se embebedar mais. Além disso, o veneno deve ser fulminante, para que não haja chance de sobreviver. É como eu agiria.

Imaginei como a agente seria uma opositora implacável.

– Sendo assim, eles ainda precisam se aproximar. Você tem certeza que um desses três é o mandante?

– Com mais tempo para interrogatórios seria possível afirmar. No entanto, sim, julgo que seja um deles.

– Obrigado pela ajuda – disse com ternura, segurando seus ombros. – Não esquecerei que salvou minha vida.

 Comecei a me afastar, mas parei diante da tensão na voz de Erinn:

– Como você resolverá a questão?

– De uma maneira nada política.

Abri um sorriso amarelado e tomei o corredor da cozinha a passos largos, desviando outra vez dos serviçais, rumo ao salão do banquete. Erinn não me seguiu. Assim que me vi entre os convidados e suas vestes coloridas, procurei, de maneira discreta, pelos três possíveis mandantes. Enxerguei o conde Pallyst se servindo de peixe assado enquanto conversava com o príncipe Moffern. A presença tardia do filho de Gaffenir aumentou minhas suspeitas sobre ser ele o interessado em me envenenar. Também identifiquei o barão Vernyag, graças à descrição dada por Erinn. Ele repetia passos de dança ao lado de um grupo de jovens mulheres.

Após me aproximar de Narius, afastá-lo de outras pessoas e explicar, aos sussurros, o encontro com Erinn e o plano para descobrir o conspirador, passei a observar a movimentação dos três suspeitos no salão. Enquanto Narius seguia minhas ordens, flertando com duas irmãs em um canto afastado, retomei a conversa com o ministro Bernast e o comandante Itallon, controlando-me para não questioná-los sobre uma possível ameaça de envenenamento. Parei de comer e beber, mas mantive uma taça nas mãos, indicando que ainda estava disposto a apreciar mais vinho.

Após seis músicas, um serviçal de rosto redondo e de cabelos castanhos se aproximou de maneira humilde, com uma breve reverência.

– Vossa Arcania deseja beber mais? Vejo que seu secretário está ocupado com outras questões.

Ele estendeu a mão, e eu fingi estar distraído. Forçando um olhar inebriado, virei para Narius. Então fiz uma careta, dei de ombros e assenti, entregando a taça ao criado. Enquanto ele se afastava, fiz questão de virar de costas, simulando despreocupação. Quando o serviçal retornou com uma taça cheia de vinho, o conde Pallyst Fadillien se aproximou, puxando conversa com seu primo Bernast. Considerei que ele desejava buscar um local privilegiado para assistir meu corpo envenenado encontrar o chão. Agradeci ao criado, que de imediato se retirou.

Antes de erguer a taça, observei cada um dos três suspeitos, concentrando-me para colocá-los em uma ilusão. A maior parte de minha energia arcana seria consumida, mas não pretendia recuar. Era a chance de descobrir quem tramava contra minha vida. Assim que coloquei o nariz dentro da taça, limitando-me a inspirar o aroma seco, o príncipe Moffern, o barão Vernyag e o conde Pallyst enxergaram um longo gole. Quando baixei a taça e permaneci inerte, mirando os demais convidados, os três testemunharam tosses, mãos agarrando a garganta e meu corpo caindo de joelhos.

De imediato descartei o conde Pallyst Fadillien como suspeito. Ele encarava a cena, incrédulo e paralisado, enquanto presenciava, ainda na ilusão, pessoas curiosas observarem meus músculos em espasmos. O príncipe e o barão, entretanto, demonstravam satisfação. As bochechas erguidas, os ombros relaxados, os olhos entretidos. Assim, desfiz a arcania referente ao conde de Grennavir e foquei a energia nos outros dois. Pallyst balançou a cabeça para os lados, em clara confusão, endureceu o rosto e se afastou. Ele ficou muito bravo por ter sido enganado, mas era necessário. Em algum momento o conde voltará a me tratar com cortesia.

Para distinguir o culpado na dupla restante, simulei em suas mentes o público alegre com a minha morte. Homens murmuravam contentes pelo novo acontecimento e mulheres soltavam risinhos de agrado. Enquanto o príncipe Moffern examinava com estranheza a reação do público em sua ilusão, o barão Vernyag inflou o peito e se empertigou, exalando orgulho. Não havia dúvidas, era ele o culpado. Desejava que Narius o apanhasse ainda sob a influência arcana, mas minha energia estava se esgotando, e precisei desfazer ambas as ilusões. Tanto o príncipe quanto o barão de Adallyg ainda estavam confusos quando gritei:

– O culpado é Vernyag Beffard.

Antes que Narius pudesse alcançá-lo, o barão empurrou dois outros nobres e correu para a passagem da cozinha, sob os olhares surpresos de todos. Tentei acompanhar Narius na perseguição, mas logo fiquei para trás. Precisei desviar de grupos de convidados e de criados com comida. Ao passar pela despensa escura na qual havia conversado com Erinn, sequer enxergava Narius ao encalço do barão de Adallyg.

Encontrei-os sozinhos em uma sala iluminada por lamparinas sobre mesas vazias. O nobre estava preso por três círculos reluzentes azuis, que o pressionavam na altura dos ombros, dos tornozelos e da cintura. Ele estava caído no chão, com a lateral do rosto vermelha. Sua espada estava desembainhada ao lado. Narius arfava, mas suas expressões estavam entusiasmadas.

– Ele cansou de fugir, se virou e sacou a espada. Aposto que me tomou por um não arcano.

– Vamos levá-lo até a nossa sede – decidi de imediato. – Precisamos descobrir seus motivos e identificar todos os envolvidos.

– Soltem-me – debateu-se o barão Vernyag.

– Cale-se ou sua vida se encerra agora – vociferei, ameaçando chutá-lo.

– Como o tiraremos daqui? – perguntou Narius, após o nobre se resignar a sua situação.

Antes que eu pudesse responder, soldados do rei Gaffenir nos cercaram no salão, liderados pelo comandante Itallon.

– O que está havendo? – bradou o militar, mantendo certa distância. – Soltem-no.

– Ele é um assassino – rebati com ímpeto. – Ou melhor, seria se eu tivesse bebido o vinho. Ele vai conosco.

– Não posso permitir que vocês carreguem um barão para fora do castelo. Se ele cometeu um crime, deverá responder perante o rei.

 – Junto com você? – rosnei ao me aproximar do comandante. – Você sabia do risco de um envenenamento. – Itallon contraiu o rosto em desagrado. – Se não quiser que eu o presuma como culpado, não apenas deixará que eu leve o barão como também nos escoltará até a Praça da Justiça.

Após pensar por alguns instantes, o comandante do exército de Wangalyr sinalizou para seus soldados nos acompanharem. Antes de tomarmos um caminho que evitaria o salão de banquetes, Itallon Carppan murmurou:

– Não estou envolvido. Sabia da possibilidade, mas julguei-a ínfima. Parecia uma ameaça vazia.

– Você informou o rei Gaffenir?

– Não.

O comandante foi categórico em sua resposta. No entanto, não acreditei em suas palavras, nem em seu semblante rígido. Mantive a tranquilidade, repetindo a mim mesmo que perseguiria a verdade com todos os meios possíveis. Entretanto, não o faria sem estratégia, isolado no castelo real.

[Bocejo].

“Vossa Arcania, deseja a bolsa de água morna agora?”

Sim, Faggya.

[Trinco girando e porta batendo].

Alcançamos nossa sede sem quaisquer percalços, acompanhados por soldados reais e pelo comandante Itallon, que logo se retirou, afirmando que precisava comunicar tudo ao rei Gaffenir. Tranquei o barão Vernyag em uma cela improvisada no porão e coloquei dois arcanos para vigiá-lo. Isso causou revolta em alguns nobres do reino, mas não era uma questão da qual se pudesse recuar. O resto da história precisará ser contado em outro momento. Estou com sono, e, como a Assembleia sequer me respondeu sobre o primeiro relato, creio que não há pressa em receber as informações. Espero que tudo esteja bem em Akinddur. Boa noite.

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