Novo Conto! Relatos de um Comissário Arcano: Chegada em Wangalyr - Parte 1

Oi, pessoal! Chegou a hora de postar o primeiro conto direto aqui no blog. Ou melhor, a primeira metade dele. Quando o conto estiver completo, ele também ficará acessível na aba contos do site.

Dessa vez se trata de uma história passada no mundo de fantasia que desenvolvi. Espero que gostem!

Relatos de um Comissário Arcano: Chegada em Wangalyr - Parte 1


“Vossa Arcania, o artefato já está funcionando.”


Querido diário. É dessa forma que devo iniciar, certo? Como uma criança ou um homem entediado iniciariam.


[Riso grave e contido].


Não estou de fato escrevendo, mas continua sendo um diário, imagino. Se não for para chamar assim, me avisem. Isso se vocês de fato ouvirem. Como me obrigaram a fazer tais registros, espero que ao menos tenham a dignidade de escutá-los. Especialmente você, Caranghius, cuja insistência foi grande para que a Assembleia Superior me nomeasse como comissário e me obrigasse a adotar relatos orais.


[Pigarreio].


“Vossa Arcania, não haverá edição do conteúdo.”


Pfft! E você acha que me importo, Narius? O que a Assembleia vai fazer? Dar-me outra função que não desejo? Manter-me mais alguns anos longe de Akinddur? Eles terão de ouvir tudo que tenho a dizer, da maneira que eu quiser dizer. Sei muito bem porque estou aqui, e eles também sabem.


“Peço perdão, Vossa Arcania.”


Tudo bem, esqueça. Vamos começar. O relato a seguir se refere ao dia 27 do sextante de Argaw-Unariel, ano 1452 da Era do Equilíbrio, o dia que cheguei à cidade de Gornyn, capital de Wangalyr.


Era final da manhã quando o barco aportou, e o calor estava digno de Mavin-Gor. Não havia uma única nuvem no céu. Enquanto a embarcação flutuava no meio do rio Agrittal, ainda havia um vento ameno. No entanto, quando desci pela rampa e coloquei os pés nos trapiches do porto, senti pena dos doze soldados que, divididos em duas linhas, formavam um corredor para me receber. Era possível sentir os raios solares aquecerem a pele, e eles vestiam cota de malha, elmo e tabardo azul e cinza. Estavam empertigados e inertes ao menos desde que distingui ao longe em qual doca aportaríamos. Cada um deles segurava um longo estandarte com a mão direita e repousava a mão esquerda no pomo da espada à cintura. O símbolo ostentado era o gavião cinzento em céu límpido da casa real Landdarion. Depois da guarda, me esperavam dois homens em túnicas coloridas.


– Bem-vindo à capital, comissário Naegthar. Meu nome é Bernast Fadillien. – Um homem baixo e gordo, cujos cabelos negros estavam lambidos para trás, fez uma rápida mesura. Gotas de suor escorriam por seu rosto. – Sou ministro da justiça do rei Gaffenir. Esse é Itallon Carppan, comandante do exército real. Nossas ordens são de auxiliá-lo na instalação e manutenção da força da Mão Arcana no reino.


O militar, que me cumprimentou com um movimento rígido de cabeça, é alto e magro e se destaca pelos ombros largos e pela postura elegante. É calvo e cultiva um cavanhaque grisalho. Ele não carregava arma alguma. Que tipo de comandante de exército anda pela cidade sem uma arma e uma armadura? De imediato julguei-o como um aristocrata nomeado ao cargo pelo nome e poder político da família, não por seus méritos e comprometimento com a função. Não estava errado, tampouco estava certo. Na verdade, ainda não tenho uma conclusão sobre Itallon. A habilidade de combate dele já se mostrou útil, mas isso é assunto para outro registro.


Retornando à nossa chegada, gostaria de salientar que não há razões para reclamar da recepção e da atenção dos wangalyeses com nossa comitiva. Todos foram alimentados e levados para conhecer os principais pontos da cidade. O rei Gaffenir ordenou a desocupação de uma construção de pedra na Praça da Justiça, ao lado do Tribunal Real, e nossos pertences foram transportados de imediato para a sede. O local é amplo o suficiente para abrigar todos que vieram comigo, de assistentes a arcanos. Quanto às forças que chegarão depois, fui informado de que mais dependências serão disponibilizadas em construções próximas, quando forem necessárias.

Enquanto o restante da comitiva era apresentado às ruas e serviços de Gornyn, o ministro da justiça e o comandante do exército me acompanharam até o castelo real, localizado em uma alta e larga colina. Ele desponta acima do resto da cidade, que se estende por montes menores. Um cavalo castanho me foi cedido, e fui guiado apenas por vias pavimentadas pelo sobe e desce das elevações de Gornyn.


Penso que eles contavam com o fato de eu não possuir destreza ou sequer costume com montarias. Cavalgando junto à Bernast e Itallon, senti-me um idiota, um inferior. A população da cidade me assistiu passar recurvado e desajeitado ao lado dos dois homens montados de costas eretas e porte elegante. Nos olhos dos populares enxerguei a admiração e a curiosidade tão comum às nossas habilidades darem lugar a deboches e ironias. A cada risinho, desejei desmontar e arrancar-lhes os dentes. Por sorte soldados a pé os mantinham a certa distância, escoltando nossa passagem, exigindo o desvio de carroças e dispersando grupos de populares.


Havia anos que não cavalgava, e o subir e descer do relevo exauriu minhas coxas. Sem falar dos glúteos. Aliás, Narius, arranje uma compressa morna para minhas pernas, por favor. Já que preciso fazer esse relato, melhor aproveitar o tempo sentado e relaxar os músculos duros e pesados como pedras.


[Trinco girando e porta batendo].


Acima do portão do castelo, que já se encontrava aberto, pendia uma enorme bandeira com o gavião cinzento da casa Landdarion. No pátio, alguns soldados e serviçais se aproximaram quando paramos próximos da entrada principal. Até aqueles mais distantes lançaram olhares curiosos. Esforcei-me ao máximo para manter a postura correta e vistosa. Assim que desmontamos, cavalariços tomaram os animais e os encaminharam para o estábulo real.


O castelo em pedra cinzenta é grande e alto, com quatro amplas torres nos cantos e uma muralha de cerca de trinta metros, mesma altura da que circunda a cidade. Não chega aos pés da beleza dos palácios que possuímos em Akinddur, mas é um castelo imponente para um reino humano comum.


Bernast e Itallon me conduziram pelo hall de entrada, por um longo corredor à direita, por um amplo salão vazio e por dois lances de escada em uma das torres. Quatro soldados montavam guarda à frente de um aposento. Ao sinal do comandante do exército, um deles bateu na porta. Um jovem de cabelo castanho curto e de túnica azul com ricos detalhes cinzentos a abriu. Ele me analisou da cabeça aos pés com seus olhos castanhos e gesticulou para entrarmos. Após fechar a porta atrás de nós, pegou uma espada embainhada encostada na parede e a estendeu para Itallon Carppan.

Enquanto o comandante a atava em seu cinto, não pude deixar de notar que a espada era digna de seu posto. O couro da bainha possuía detalhados relevos que davam forma a um dragão. O aço da guarda era trabalhado de maneira a parecerem duas cabeças draconianas, e o pomo era ornado com um cristal simples, mas envolto em metal no formato de um pequeno dragão.


– Comissário Naegthar, esse é Moffern Landdarion, príncipe herdeiro de Wangalyr – apresentou Bernast. – Ele auxilia o rei em variados assuntos, de modo que você o encontrará com frequência.


Realizei uma reverência curta, e Moffern apenas assentiu de maneira seca. As expressões do rosto eram nítidas e antipáticas. A mão esquerda balançava próxima da espada à cintura. Encarei-o fundo nos olhos, tentando avaliar se desejava me atacar ou se apenas estava com medo. Entretanto, o ministro da justiça me interrompeu.


– Por aqui, comissário. O rei o espera.


Estávamos em uma antessala dotada apenas de uma mesa cheia de papéis e pergaminhos. No canto, um tinteiro e duas penas. As paredes são ornadas com pinturas de batalhas. Pela janela entrava o calor e a claridade da rua, e Bernast gesticulava junto a uma porta lateral. Ao me aproximar, o ministro bateu na porta e colocou a cabeça para dentro.


– Vossa Majestade, o comissário arcano está aqui.


Não consegui ouvir qualquer resposta, mas Bernast escancarou a porta e liderou o caminho pelo gabinete real. Itallon e Moffern nos seguiram.


O ambiente é grande, mas confortável. No lado oposto às duas janelas, uma lareira cercada por poltronas. No fundo, uma ampla escrivaninha com uma rebuscada cadeira de encosto alto, na qual se sentava o rei. A sua frente, quatro cadeiras comuns. Atrás do soberano, uma tapeçaria com o gavião cinzento da casa Landdarion. Nas demais paredes, prateleiras cheias de tubos de pergaminhos e livros.


O rei Gaffenir se levantou para nos receber. Alguns de vocês já o conhecem, mas ele é alto e magro, possui peito largo, nariz torto e cabelos castanhos ondulados até os ombros. Usa uma barba vasta, e os olhos são castanhos e difíceis de interpretar. Aparenta seus trinta e dois anos de idade. Ao me aproximar, prestei uma reverência, cuidando para não fazer um movimento muito curto, nem um profundo a ponto do joelho se aproximar do chão, exatamente como a Assembleia me ordenou.


– Vossa Majestade, em nome da Mão Arcana, consoante tratado assinado em Akinddur, coloco o meu serviço e o de todos sob meu comando à sua disposição. Alguns arcanos ainda estão por chegar à Gornyn, mas poderemos iniciar operações assim que nos instalarmos.


– Agradeço, comissário, e cumprirei minha parte no acordado, mas não são necessárias formalidades entre nós. – Sua voz saiu grave e cadenciada. – Falemos como dois homens com objetivos comuns. Sente-se.


Ocupei uma das cadeiras simples diante do rei. O ministro da justiça, o comandante militar e o príncipe permaneceram de pé.


– Fiquei muito satisfeito ao saber que você seria o comissário arcano em Wangalyr. – Gaffenir voltou a se sentar. – Confesso que estava ansioso para conhecer o famoso Naegthar de Deffand. Acabei nem lhe dando oportunidade de se lavar.


[Trinco girando. Porta batendo].


Você demorou, Narius.


“Sinto muito, Vossa Arcania. Aqui está.”


[Água se movendo em recipiente mole].


[Suspiro].


Isso é agradável. Mais tarde você precisará providenciar outra dessas bolsas de água para mim.


“Às suas ordens.”


Onde eu estava? Ah, sim. Sem pressa, esbocei um sorriso e fiz uma mesura com a cabeça para o rei, aproveitando para espiar a condição de meus trajes. A túnica azulada estava com marcas de suor nas axilas e no pescoço. Teria preferido me lavar, mas não se pode recusar um encontro com o rei.


– Espero que não tenha se importado com a recepção simples no porto – continuou Gaffenir, esboçando um sorriso. – Penso que há maneiras melhores de se gastar o ouro real, especialmente na atual situação de Wangalyr. E agora ainda precisaremos pagar à Mão Arcana.


Algo em sua maneira me alertou para simpatia exagerada. Pareceu um homem que gosta de falsas ações e pretensões escusas. Não sou um homem político como a maioria na Assembleia, mas consegui identificar esses traços já em nossa primeira conversa. Ele é um rei com o qual devemos tomar cuidado.


– Vossa Majestade, não estou aqui para ser tratado de maneira pomposa, mas para auxiliar Wangalyr e cumprir o acordado. Pouco me importa se a recepção foi simples ou exagerada. Aliás, por onde devo começar? O que Vossa Majestade tem em mente para a utilização de nossos arcanos?


– Falaremos disso hoje à noite, no jantar. Aproveitarei o momento para apresentá-lo a algumas outras pessoas que você deve conhecer. Gostaria também que me falasse detalhes de como funcionam os auxílios da Mão Arcana a outros reinos. – Ele olhou e apontou para os homens de pé. – Seria bom se Bernast e Itallon também estivessem junto.

– Como desejar, Vossa Majestade – dissemos os três em uníssono.


A porta do escritório abriu de repente. Um soldado cruzou o aposento, se inclinou ao lado do rei e cochichou em seu ouvido. As expressões de Gaffenir Landdarion endureceram. O maxilar saltou na lateral do rosto. Ele se levantou, e eu o imitei.


– Comissário Naegthar, talvez você possa começar agora. Uma ajuda arcana será necessária. – Assenti com o queixo. – Siga-me.


Quando o soberano se aproximou da porta que ligava a antessala do gabinete ao corredor do castelo, percebeu que Moffern também nos acompanhava. Ele se virou para o filho, sacudiu o dedo em negativa e apontou para a mesa cheia de papéis. O jovem não escondeu a decepção ao caminhar na direção indicada. O rei Gaffenir deu-se por satisfeito com um movimento de cabeça convicto e retomou sua marcha a passos largos.


Enquanto virávamos pelos corredores do castelo, o rei emitiu ordens comuns para serviçais e subordinados com os quais cruzava. Ainda não sabia o que estava acontecendo, mas o ministro da justiça e o comandante militar pareciam inteirados da questão. Seus semblantes eram sérios, mas não confusos. Quando alcançamos um pátio lateral, alinhei com o rei de Wangalyr e indaguei com voz firme:


– O que está acontecendo, Vossa Majestade? – Gaffenir me mirou pensativo. – Preciso saber para estar preparado. Talvez tenha que chamar mais arcanos para lidar com a situação.


– É trabalho para um homem só – garantiu o soberano, com um meio sorriso pretensioso. – Você capturará um antigo sacerdote da Tríade que vem causando problemas na cidade, em especial após o acordo com a Mão Arcana. Meu serviço secreto acabou de confirmar o local em que ele discursará ainda hoje.


Encarei o rei por alguns instantes. Então concluí:


– A reunião foi um pretexto para me trazer assim que aportei. Vossa Majestade apenas deseja me incumbir de uma missão.


O rei de Wangalyr deu de ombros.


– Não pagaria pela paz arcana se não tivesse pressa em resolver os problemas do reino. Além disso, quero saber se fará jus a sua fama.


Sorri diante do desafio. Imaginei como vocês da Assembleia reprovariam minha participação na execução de missões. Fico feliz em dizer que não me importei. Foi uma requisição real, vocês compreendem.


[Risadas contidas].


Encarando com olhos faiscantes o rosto de Gaffenir, respondi com entusiasmo ácido:


– Qual o plano de Vossa Majestade?



Em breve virá a segunda e última parte!


Abraço!

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