Novo Conto! Relatos de um Comissário Arcano: Chegada em Wangalyr - Parte 2

Atualizado: 23 de Jul de 2019

Oi, pessoal! Aqui está a segunda e última parte do conto da semana passada. Espero que gostem! Quem quiser ler ele inteiro pode clicar aqui. Se desejarem, comentem, compartilhem, se inscrevam.

Abraço!



Relatos de um Comissário Arcano: Chegada em Wangalyr - Parte 2


O rei Gaffenir me explicou o plano, mas não o direi de antemão para manter algum mistério. Não desejo que vocês da Assembleia fiquem entediados com meus relatos. Em especial quem gosta de tramas e intrigas.


Deixei o castelo sozinho com uma capa marrom sobre a túnica azul. Sequer precisei trocá-la para a missão. As manchas de suor e a sujeira colaborariam para que passasse despercebido entre os populares de Gornyn. Após caminhar duas quadras sob o sol forte, a capa também umedeceu com a transpiração.


Dobrei à direita na esquina em que figurava uma oficina de ferreiro com ampla fachada. Ao lado havia uma estreita alfaiataria identificada pela pintura de uma túnica e de uma calça na placa ao lado da soleira. A porta estava fechada e, como orientado, bati cinco vezes. Um velho encarquilhado a abriu e me observou por completo. Fiquei surpreso que alguém naquelas condições ainda estivesse vivo. Você está exalando juventude se comparado a ele, Caranghius.


[Risos com a garganta].


Ao gesticular com o braço flácido para que entrasse, o idoso apontou para a porta e percorreu um corredor vazio. Fechei a entrada da alfaiataria e o segui até um aposento apertado e entulhado com sobras de tecido e roupas em produção. Sentada em uma bancada com ferramentas, uma mulher de cerca de trinta anos me aguardava de braços cruzados. Ela franziu o cenho do rosto estreito e comprido. A pele era cor de caramelo, e os cabelos, castanhos e crespos. Os olhos pretos me analisaram com agilidade. Ela era jovem e usava um vestido esverdeado sob uma capa negra.


– Você é ele? – A voz era seca e belicosa.


– Sou.


– Prove.


– As águas do Agrittal dividem espíritos e corpos. Os do norte, covardes e moles, os do sul, corajosos e duros.


Imagino que estejam rindo agora. Sim, senti-me um tolo recitando um ditado desses, mas foi a senha que o comandante Itallon Carppan me passou. Ele também se divertiu ao insistir que era a única utilizável. Ao que parece a rivalidade entre os reinos de Wangalyr e Alyzair continua tão acirrada quanto sempre soubemos.


De qualquer forma, por mais que seja engraçado, pelo menos recebi em retorno um sorriso da agente do rei.


– Imaginei-o diferente, comissário. Sou Erinn.


Arregalei os olhos e mirei o idoso, que retomava seu lugar junto ao balcão com as roupas. Erinn deu de ombros.


– Ele é surdo, não se preocupe.


O velho percebeu que o encarávamos e fez um gesto claro para que fossemos embora. Segui Erinn por uma porta nos fundos e me vi em um aposento estreito e sem janelas. Havia apenas uma cama, uma mesa de cabeceira com uma lamparina e um armário. A agente se inclinou e moveu a mesa para o lado, revelando um alçapão. Enquanto Erinn destrancava um largo cadeado com um molho de chaves retirado do decote, perguntei:


– Como você me imaginou?


– Mais velho.


– Se importa em elaborar?


Ela puxou a alça de ferro e iluminou a abertura com a lamparina, sinalizando para que entrasse primeiro. Uma escada vertical apareceu, e comecei a descer. Como não era comprida, logo toquei o chão.


– Você estava cotado para compor a Assembleia da Mão Arcana. – Erinn soltou a lamparina pelo alçapão antes de tomar a escada. Peguei-a e iluminei o estreito túnel adiante. – E também é um arcano de renome. Esperava ver algumas rugas em seu rosto.


– Comecei cedo. – Dei de ombros. O alçapão rangeu ao ser fechado. – Então vocês me investigaram. Descobriram algo interessante?


Erinn estreitou os olhos e tomou a lamparina de minhas mãos, adiantando-se e guiando o caminho pelo túnel. O teto era baixo, e o chão, de terra.


– O suficiente para supor que você conseguiria encontrar Sardonn.


– Vocês já o localizaram sem minha ajuda.


– Assim como outras três ou quatro vezes. Ele sempre consegue escapar. Nunca conseguimos nos aproximar dele com homens suficientes para prendê-lo. Ele se esconde entre o povo com seus companheiros e some nos túneis sob a cidade.


Alcançamos uma porta de madeira, que Erinn destrancou. Atrás, uma pequena câmara e um novo alçapão com cadeado. Dessa vez a escada possuía degraus de pedra e levava a um túnel mais largo e pavimentado.


– Nem arcanos conseguiram se aproximar?


– O rei contratou alguns. Dois deles falharam em capturá-lo nas ruas, outros não conseguiram encontrá-lo.


Alcançamos uma câmara com três outras opções de caminho. Erinn escolheu o esquerdo, e me deparei com um leve aclive. Outra vez o chão era de terra, e os passos silenciaram.


– Qual a história de Sardonn? O comandante Itallon o descreveu fisicamente, mas não disse a razão de estar sendo caçado.


– É um fanático. Antes de se estabelecer em Gornyn, era um sacerdote andarilho que pregava o ódio aos arcanos e às raças não humanas em pequenos vilarejos. Ele inflama o povo e sabota negócios e caravanas, em especial se envolvidos com a Mão Arcana. Tudo piorou após o acordo para a paz arcana.


– Difícil de acreditar que não conseguem localizá-lo. É de um antigo sacerdote da Tríade que estamos falando.


Erinn parou diante de uma grade de hastes grossas e me encarou com seriedade. Os olhos faiscavam à luz da lamparina. A voz saiu crítica.


– Parte da população o protege, e o rei insiste em não fazermos das pessoas o inimigo. Então não podemos torturar todos os suspeitos por informação, nem atacar um lugar público arriscando a vida do povo.


– Ele não quer ser odiado.


– Quer ser aclamado como o rei que salvou Wangalyr dos fora-da-lei, contrabandistas e mercenários. Quer ser um herói.


– E você desaprova.


– Não é minha função aprovar ou desaprovar, mas o reino não precisa de heróis, precisa de pessoas dispostas a fazer o que é necessário. E nosso rei sabe disso.


A agente real destrancou a grade e me guiou por um túnel amplo e curvo repleto de interseções com passagens estreitas.


– É essa a verdadeira intenção do rei Gaffenir com a Mão Arcana? Culpar-nos por atos vis e excessivos que ele considerar necessários? O povo sabe que foi ele quem nos propôs um acordo e nos contratou. Nossas ações virão de ordens dele.


Em frente a uma porta de ferro, Erinn remexeu o molho de chaves na mão e voltou a me encarar.


– Não sei. No entanto, você tem sua ordem. Ela pode ser um indicador. – Suspirei e movi o queixo em compreensão. – Agora chega de conversa. A partir desse ponto, erga o capuz e se comporte como um popular corajoso o suficiente para manifestar apoio à Sardonn em público. Não olhe para os lados. Se precisar, olhe para mim, estaremos de mãos dadas. Os soldados com quem cruzaremos não sabem quem você é. Não nos faça ser interrogados.


– Não sou um iniciante. – Esbocei um sorriso cínico e estendi a mão direita.


– Espero que seja a verdade. Passamos semanas sem informações sobre Sardonn. Podemos não ter outra oportunidade.


Erinn destrancou a porta de ferro e me puxou. Assim que nos vimos em uma câmara de teto baixo com dois caminhos possíveis, a agente fechou a passagem e observou os arredores. Ao longe, ouvi o som de passos e murmúrios. À medida que Erinn me conduziu por diferentes curvas e esquinas, os barulhos aumentaram, e passei a enxergar vultos iluminados por tochas ou lamparinas que se deslocavam na mesma direção que nós.

[Água se movendo em recipiente mole].


Narius, a bolsa já esfriou. Pode levar.


“Sim, Vossa Arcania. Deseja outra?”


Não, deixarei para mais tarde. No entanto, gostaria de vinho.


[Trinco abrindo e porta batendo].


[Pigarreio].


Após algum tempo, alcançamos uma câmara na qual desembocavam sete túneis. Três escadas móveis subiam até uma larga abertura pela qual irradiava luz solar. Havia uma pequena fila para cada uma. Erinn escolheu a da direita e subiu primeiro. Saímos em um beco que levava até uma ampla praça cercada por construções de madeira com dois andares. No centro, um palanque ainda vazio. Pessoas chegavam por vielas de todos os lados, algumas observavam das janelas ao redor. Sussurros enchiam o ar. Erinn me puxou para uma parede, ficando de costas para o movimento, juntando nossos corpos. Coloquei as mãos em sua cintura.


– Conversaremos aqui até ele chegar e trocaremos de posição às vezes – sussurrou ao pé do ouvido. – Cumpra o papel, mas se tentar me beijar, o rei precisará de um novo comissário.


Forcei um sorriso e assenti, aproximando os lábios de seu pescoço. Ela cheirava à fornalha.


– Onde nós estamos?


– Em uma praça de mercado. Hoje não há comércio algum em razão do pronunciamento do rei sobre o início da colaboração com a Mão Arcana. Por isso Sardonn escolheu esse local.


– Não me parece que seria difícil cercar a praça e capturá-lo, caso houvesse soldados suficientes envolvidos.


– Não o subestime, mesmo com suas habilidades arcanas. – O tom de Erinn foi cortante. – E ele divulga o local para a população ao alvorecer. Dificulta qualquer planejamento.


Erinn e eu conversamos por algum tempo sobre a situação de Gornyn, aguardando pela aparição de Sardonn. Ela reclamou daquilo que a Assembleia já conhece. Grupos de fora-da-lei que aterrorizam estradas e pequenos vilarejos, contrabandistas que afetam os cofres reais, ladrões que deixam a cidade insegura à noite, baixa taxa de adesão ao exército, condes e barões que demonstram maior interesse em adquirir fortuna e poder político do que em fazer seus domínios prosperarem. No entanto, enquanto ela falava, tive a impressão de que a situação é ainda pior do que sabemos. O tempo nos mostrará se a Assembleia deveria ter juntado informações melhores antes de negociar o preço da paz arcana com o rei Gaffenir.


Quando a praça estava cheia, um homem usando capuz preto e máscara vermelha subiu no palanque. Ainda que estivesse encarando a multidão, não soube de onde ele havia saído. O público ovacionou a aparição, e Erinn se voltou para o centro do local, encostando ao meu lado na parede.


– Ele sempre usa máscara?


– Poucas vezes. Não sabemos qual o critério para ele usar ou não.


– Então pode nem ser ele.


– Logo descobriremos.


Expirei com força, franzindo o cenho, e Erinn ergueu os cantos dos lábios.


Então o homem mascarado no centro do palanque falou. A agente real me fitou com olhos sérios e assentiu. A voz era retumbante, enrouquecida e inflamada.


– Cidadãos de Gornyn. Verdadeiros cidadãos de Gornyn, não aqueles que desejam ver nosso amado reino de Wangalyr entregue às garras da Mão Arcana. Cumprimento-os com sincero reconhecimento pela coragem e dignidade que demonstram ao estarem aqui hoje. Bem-vindos. – O público aplaudiu e assoviou. Erinn se juntou ao coro, e logo a imitei. Sardonn ergueu a mão e todos silenciaram. – Apesar de nossos esforços, do brado cansado e do suor sofrido de todos que desejam o bem de Wangalyr, o rei Gaffenir se ajoelhou perante a Mão Arcana. Nesse exato momento, na Praça da Justiça, nosso governante demonstra nada além de fraqueza ao comemorar o início do que eles chamam de paz arcana. – Alguns na plateia vaiaram o rei, e Sardonn aguardou que a manifestação cessasse para retomar o discurso incandescente. – Enquanto Gaffenir Landdarion clama estar fortalecendo o reino, ele o está colocando à mercê da Mão Arcana. Vejam como essa maldita ordem controla o reino de Alyzair. Nós não somos fracos como eles, precisamos manter nossa autonomia. – Gritos de apoio reverberaram pela multidão. – A paz arcana não passa de um nome bonito para o controle que Wangalyr sofrerá de uma ordem repleta de arcanos corruptos. E o rei ainda pagará a eles por isso. Em pouco tempo precisaremos subornar arcanos para tudo que desejarmos fazer e implorar para que não nos matem. É assim que vocês desejam viver? – O público rugiu, e troquei olhares preocupados com Erinn. – É claro que não. Vocês querem viver em um reino livre, em uma Wangalyr cujo rei se importe de verdade com o povo. E por isso nós precisamos mostrar a ele o que desejamos.


[Trinco girando e porta abrindo].


“Vossa Arcania, aqui está.”


[Líquido sendo servido].


Ótimo. Ao menos o vinho aqui é decente, apesar de todos preferirem hidromel. Narius, você deixou a porta aberta.


“Desculpe-me, Vossa Arcania.”


[Porta batendo].


Continuando. Enquanto as pessoas na praça apoiavam o discurso com aplausos e brados, me aproximei do palanque, passando entre os populares, erguendo o braço em apoio, gritando o nome de Sardonn, mantendo a cabeça baixa. Erinn não me seguiu. A próxima parte da missão era minha. A agente real avisaria soldados que se escondiam na vizinhança. Parei a passos do palco de madeira. Dois brutamontes guardavam Sardonn naquele lado, enquanto seis ao todo o vigiavam com porretes pendurados à cintura. A dupla me encarou com firmeza, mas desviou os olhares assim que me juntei ao coro do público. O antigo sacerdote da Tríade retomou a palavra:


– Se vocês desejam o bem de Wangalyr, se querem a libertação dos exploradores arcanos, aguardem por ordens nos próximos dias. Lembrem-se do que prega o Livro de Hannor: “os humanos foram criados para dominar o mundo, para guiá-lo ao equilíbrio, para livrá-lo da fúria cega dos artranni e dos caprichos assassinos dos irdranni, para tornar a criação dos Primevos um lugar de paz.” E como afirma o livro de Shakka: “Não haverá paz para os humanos sem que se pegue em espadas para lutar pelo desejo dos Primevos, pelo equilíbrio de que viemos e ao qual somos destinados.” – O público balançou a cabeça em concordância solene. – Os arcanos apenas trazem o mal, o desequilíbrio. Seus poderes derivam dos irdrans. Eles não deveriam nos governar, nós que deveríamos governá-los.


A praça retomou a manifestação de apoio à Sardonn, que ergueu as mãos e aguardou as pessoas silenciarem.


– Soldados! – gritou um homem encapuzado no telhado de uma das construções ao redor.


Os seis brutamontes se aproximaram de Sardonn, que se abaixou e saltou do palanque. A multidão começou a gritar, empurrando e puxando uns aos outros, correndo rumo às vielas, becos e acessos aos túneis subterrâneos de Gornyn. Avancei para perto do antigo sacerdote e fingi estar apavorado, arregalando os olhos e movendo a cabeça de um lado a outro. Os homens de porrete afastavam os populares e abriam caminho para o mascarado correr até um beco estreito. Nenhum deles percebeu que os seguia de perto em meio aos gritos e empurrões.


Ao alcançarmos o beco, nos deparamos com um grupo de pessoas afoitas em descer por um alçapão. Elas cercavam a passagem, enquanto dois por vez alcançavam os túneis sob a capital de Wangalyr.


– Saiam da frente – gritou um dos brutamontes, e um espaço se abriu para Sardonn passar com seus guardas.


Ao me aproximar do grupo do antigo sacerdote para passar em seguida, três homens de capuz me encararam com ímpeto furioso. Antes que eles tentassem me deter, me concentrei e movi a mão, interferindo em suas mentes, fazendo com que me enxergassem como um sétimo brutamontes. Eles balançaram a cabeça para os lados, confusos, e não me abordaram.


Assim que desci os degraus de pedra até um túnel mergulhado na penumbra, segui Sardonn por uma passagem lateral. Diversos populares transitavam às pressas pelo subterrâneo. O grupo do antigo sacerdote dobrou à esquerda e à direita por diferentes túneis e passagens. Segui-os de perto. Então, em uma pequena câmara, quando não havia ninguém ao redor, três dos brutamontes pararam e ergueram os porretes, enquanto os outros continuavam a se mover.


– Ninguém toma o mesmo caminho de Sardonn – grunhiu um dos brutamontes, movendo a arma em ameaça. – Volte agora.


Sequer cheguei a parar. Passei a mão em arco no ar e mergulhei o trio em um delírio agradável e excitante com garotas nuas e barris de cerveja. Os maxilares trincados e os olhos agressivos foram substituídos por lábios salivantes e músculos relaxados. Os porretes rolaram no chão de pedra com um barulho seco. Juntei uma das armas, enquanto Sardonn me fitava por trás da máscara e sinalizava para os três guardas restantes me enfrentarem.


Outra vez não precisei parar. Todos possuíam mentes fracas, e as ilusões não exigiram grande esforço. Coloquei o trio no mesmo delírio com cerveja e mulheres. Eles também relaxaram e adquiriram expressões de desejo bobo, deixando-me sozinho com Sardonn.


O antigo sacerdote correu e entrou em um largo túnel com chão de terra. Segui seus passos, mas ele era mais rápido. Então conjurei uma esfera de luz azul a sua frente, e Sardonn parou assustado. Imagino que tenha julgado se tratar de um ataque. Se ele soubesse sobre minhas poucas capacidades arcanas além das ilusões, talvez tivesse escapado.


[Riso contido].


Alcancei-o em alguns passos e lhe acertei com o porrete, abrindo o crânio entre a têmpora e a nuca com um estalo seco. O capuz escorregou e a máscara saltou. Ele tentou permanecer de pé ao se apoiar na parede, mas não conseguiu se sustentar e caiu sentado no chão. Sob a luz azulada da esfera, encarei os olhos castanhos vacilantes e observei o queixo proeminente e o nariz bulboso. Não era ele. Não era Sardonn. A descrição não batia. Era o homem errado, e o rei Gaffenir está furioso, questionando a utilidade dos arcanos em Wangalyr enquanto faço esse relato.


[Risadas expiradas].


Estou brincando, era Sardonn. Devo lembrar a Assembleia de que, mesmo quando a habilidade arcana não é suficiente, a sorte sempre está ao meu lado? Vocês sabem disso. Bom, retomando. Poderia ter levado o antigo sacerdote até o rei com uma ilusão que me permitisse guiá-lo, mas as ordens foram explícitas. Então brandi o porrete outras três vezes contra a cabeça de Sardonn, evitando acertar o rosto. Quando terminei, os olhos estavam fechados, e a parte de trás do crânio não passava de uma massa de miolos e cabelos.


Olhei os arredores. O túnel estava vazio e silencioso. Da base das costas, retirei duas adagas curvas escondidas sob a capa escura. Cravei ambas na garganta de Sardonn, uma junto da outra, e tentei afastá-las para decepar a cabeça. Não funcionou, mas senti o sangue quente encharcar minhas mãos. Deixei uma das lâminas no pescoço, segurei o queixo com a mão esquerda e passei a cortar a cabeça fora. Não imaginava que fosse demorado e exigisse esforço. Por sorte havia submetido os brutamontes a delírios longos, ou eles teriam me encontrado.


Retirei a capa preta de Sardonn e enrolei-a na cabeça decepada. Guardei as adagas e, satisfeito pelo dever cumprido, vaguei pelos caminhos subterrâneos até encontrar um acesso à superfície. Após subir por largos degraus, cruzei uma passagem em arco e me deparei com uma praça tranquila, na qual crianças brincavam. Elas ficaram receosas ao me enxergarem, mas apontaram a direção do castelo real.


[Batidas na porta. Trinco girando].


“Vossa Arcania, o ministro da justiça está aqui para a reunião.”


Já? Ele está adiantado. Narius o buscará quando eu estiver pronto para recebê-lo. Obrigado, Faggya.


“Às suas ordens, comissário.”


[Porta batendo].


Membros da Assembleia Arcana, gostaria de contar-lhes sobre a trilha de sangue que deixei nas ruas no trajeto até o castelo real e sobre como fui recebido pelo rei, mas precisarei encurtar o relato. Basta saberem que o rei Gaffenir ficou muito satisfeito com o sucesso da missão e com o fim de um notório criminoso.


Aliás, falando outra vez no rei, precisamos nos atentar às ações e comandos dele. Ainda que a Mão Arcana esteja sendo paga, não podemos nos colocar em certas posições. Nisso eu ajudaria muito mais se estivesse sentado na Assembleia em vez de ocupando esse maldito cargo. Bom, ao menos tenho tido alguma ação.


No próximo relato desejo contar-lhes sobre os acontecimentos do jantar daquele mesmo dia. Agora preciso atender o ministro Bernast Fadillien para tratar sobre o planejamento das patrulhas arcanas por Gornyn. Espero que tudo esteja bem em Akinddur.


Narius, como encerro o registro?


“Basta tocar o artefato e ordenar com a mente, Vossa Arcania.”


Certo, certo. Obrigado.

Espero que tenham gostado!

Abraço!


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